Diário de um Técnico de Enfermagem: o matambre e a costela no armário

Durante os últimos 45 dias, acompanhei um paciente descendente de italianos, de 89 anos, diagnosticado com cistite. A cistite é uma inflamação da bexiga, geralmente causada por infecção bacteriana, que pode provocar dor ao urinar, urgência frequente e desconforto abdominal. Em pacientes idosos, exige atenção especial para evitar complicações.

Desde o primeiro dia, ele enfrentou o tratamento com um sorriso no rosto. Mesmo nos momentos mais difíceis, sempre tinha uma piada ou uma história para contar. Sua grande paixão era ouvir a rádio Difusora de Bento Gonçalves, acompanhando as notícias e as músicas que relembravam sua juventude. Enquanto ajustava o soro ou administrava os medicamentos, lá estava ele, cantarolando junto com os sucessos musicais que ecoavam pelo quarto.

Em um domingo de plantão, entre uma conversa e outra, perguntei brincando: “E aí, estava bom o churrasco do meio-dia?” Com um olhar maroto, ele respondeu: “Sim, comi, meu genro trouxe.” Então falei: “E guardou um pedaço para mim?” Sem hesitar, ele sorriu e disse: “Claro, tem um pedaço de matambre e uma costelinha ali no armário, é só pegar!”

Para minha surpresa, ao abrir o armário, lá estava realmente um prato bem arrumado com os pedaços de carne guardados com carinho. Foi um momento de risadas e cumplicidade, que reforçou ainda mais o vínculo criado ao longo do tratamento.

Esses momentos leves e espontâneos são a prova de que, na área da saúde, o vínculo entre profissional e paciente vai além do tratamento clínico. Com o tempo, criamos laços de amizade, compartilhamos histórias e aprendemos lições valiosas. O cuidado é uma via de mão dupla: enquanto cuidamos da saúde física dos pacientes, eles nos ensinam sobre resiliência, alegria e o verdadeiro sentido da vida.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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