Hoje, às três horas da madrugada, o plantão me presenteou com mais do que apenas rotinas e medicações. Trouxe aprendizado, sensibilidade e afeto — daqueles que só se vive na linha de frente.
Dona Tereza (fictício) tem 82 anos e está internada há 15 dias com um quadro de infecção urinária. Essa condição, comum em idosos, ocorre quando bactérias invadem o trato urinário, causando febre, ardência ao urinar, fraqueza e, muitas vezes, confusão mental. O tratamento inclui antibióticos, hidratação e, claro, muito cuidado.
Nos primeiros dias, ela era só sorrisos e conversas animadas, cheia de esperança com a melhora. Mas nos últimos tempos, a ansiedade começou a pesar. Ela dizia: “Não estou me sentindo bem.” Como Técnico de Enfermagem, além dos cuidados físicos, também preciso estar atento ao emocional. Sugeri uma caminhada leve pelo setor, e ela topou. Voltou ao leito dizendo: “Estou me sentindo melhor.”
Minutos depois, lá estava ela me chamando de novo: queria caminhar mais. Eu sorri, expliquei que precisava atender outros pacientes, mas prometi voltar — e cumpri. Mais uma volta pelo corredor, mais uma dose de leveza. Ao retornar, ela me pediu para deitar. “Agora sim, me sinto bem melhor”, disse com um sorriso sereno.
Mais tarde, ouvi quando disse à filha: “Sabe, filha… ele é lá da fronteira. Dizem que o pessoal de lá é bravo, mas ele é um anjo.”
Saí do quarto com o coração leve. Às vezes, o melhor remédio não está na farmácia — está na escuta, no cuidado, no simples gesto de caminhar ao lado de alguém.
Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem