Ser técnico de enfermagem vai muito além de medicação e procedimentos. Às vezes, é preciso oferecer algo mais: presença, escuta e humanidade.
Essa semana, conheci um paciente de 57 anos, diagnosticado com HIV. A AIDS, causada pelo vírus HIV, ainda carrega estigmas, mas os avanços no tratamento permitiram que muitas pessoas tenham qualidade de vida. O uso contínuo de antirretrovirais e o acompanhamento médico são essenciais. E nós, da enfermagem, temos papel fundamental nesse cuidado.
Durante o atendimento, percebi que ele estava tenso. Então, puxei assunto, de forma leve. Contei que sou de Lavras do Sul, lá do Pampa Gaúcho, quase na fronteira com o Uruguai. Falei que, há 20 anos, trabalhava com jornalismo e que só recentemente me formei como técnico de enfermagem. Ele abriu um sorriso.
Aos poucos, entre um cuidado e outro, ele compartilhou sua história. Foi representante comercial de uma grande marca de massas e biscoitos, viajou por todo o estado. Casado, com filhas, viveu intensamente — e, segundo ele mesmo, sem muitos limites. Foi assim, em uma dessas noites, que contraiu o HIV. Hoje, sozinho no hospital, ele ainda carrega leveza no olhar e sonha em morar na praia, levando uma vida tranquila.
Durante os atendimentos, sempre utilizo todos os EPIs: luvas, máscara, avental. Proteção para mim — e para ele, cuja imunidade está fragilizada. Expliquei isso com respeito, e ele compreendeu com gratidão.
Com o tempo, viramos amigos. Trocas sinceras, conselhos de vida, histórias de estrada e lições que não se aprendem em sala de aula. Porque, no fim, a técnica é essencial — mas é o afeto que transforma o cuidado em cura.
Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem
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