Diário de um Técnico de Enfermagem – uma amizade entre sinais vitais e recomeços

Há mais de 30 dias venho acompanhando um paciente de 48 anos, que chegou ao hospital agitado, em abstinência alcoólica. Ex-etilista — como chamamos quem teve histórico de consumo excessivo de álcool —, ele precisou de medicações para acalmar o corpo e a mente. A abstinência, que pode causar tremores, alucinações, agitação e até convulsões, é só uma das muitas faces do alcoolismo. Com o tempo, surgem também outras doenças: cirrose hepática, pancreatite, problemas cardíacos e até neurológicos.

Quando a tempestade passou, surgiu o homem por trás da dor. Lúcido, me chamou de “Gaudério”, por eu ser de Lavras do Sul, no coração do pampa gaúcho. Ele, um pedreiro, natural de Santo Ângelo, começou a compartilhar sua história. Falou do arrependimento pelas atitudes sob efeito da bebida, da separação, da distância das filhas. Disse que a solidão do leito era um castigo.

Mas Deus sempre coloca alguém na travessia. Um pastor o visita toda semana, levando frutas e palavras de fé. E eu, no meu jaleco, fui ouvindo, acolhendo, sem julgamentos. A cada plantão, a mesma saudação entre amigos:
— Como tá hoje, gaúderio?
— Tudo bueno, gaudério. Tô aqui lendo a Bíblia.

A alta se aproxima. Ele diz que está ansioso, que quer recomeçar. E eu disse o que o coração sentiu:
— Isso mesmo, gaudério. Foco na nova vida. Que as nossas conversas e a Palavra de Deus iluminem teu caminho.

No fim das contas, não é só a medicação que cura. Às vezes, um pouco de escuta, um apelido carinhoso e a fé no recomeço também fazem parte da receita.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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