Diário de um Técnico de Enfermagem: Até Onde Vai a Coragem de uma Mãe?

Há cerca de 30 dias presto assistência à Ana, uma paciente de 42 anos, casada, mãe de dois filhos, que há três anos trava uma dura batalha contra o câncer de colo do útero — uma doença que afeta a parte inferior do útero e, em casos avançados, compromete profundamente a qualidade de vida. Recentemente, Ana passou a enfrentar também uma fístula vesicovaginal, uma comunicação anormal entre a bexiga e a vagina que causa incontinência urinária constante, exigindo cuidados delicados e, muitas vezes, internação em leito de isolamento de contato — um protocolo de segurança hospitalar que visa evitar a transmissão de infecções.

Nos primeiros dias, encontrei uma Ana abatida, silenciosa e com muita dor. Mas com o avanço do tratamento e a rotina dos cuidados, ela começou a conversar mais comigo, revelando, aos poucos, uma força surpreendente.

Numa dessas noites, ao chegar para o plantão, encontrei seu quarto cheio de vida: esposo e filhos a visitavam. O sorriso no rosto de Ana dizia tudo. Fiz os procedimentos de praxe, sinais estáveis, e segui minha rotina, prometendo voltar às 20h para a próxima medicação.

Quando retornei, puxei conversa sobre a família. Falou com ternura dos filhos — o mais novo, apaixonado por carros e motos, e o mais velho, cursando Administração. E então, me confidenciou, com os olhos marejados:

“Você e eu sabemos que meus dias estão contados. Mas se eu conseguir ir à formatura do meu filho, essa será a minha vitória.”

Ali, diante de mim, estava uma mulher pequena no corpo, mas gigante na esperança. E ao seu lado, sua irmã incansável, que há 30 dias não a deixa sozinha nem por um segundo.

Ana me ensinou que a coragem não está em vencer a guerra, mas em continuar lutando por pequenos grandes sonhos. E que, às vezes, só queremos tempo o bastante para um último abraço, uma última conquista. Que ela chegue até lá.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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