Diário de um Técnico de Enfermagem: comemorar, mesmo no hospital

O plantão recém havia começado quando fui aferir os sinais vitais de um paciente já conhecido por muitos de nós. Um jovem guerreiro que enfrenta o Linfoma de Burkitt — um tipo raro e agressivo de câncer que atinge os linfócitos, células de defesa do organismo. Ele evolui rapidamente e exige tratamento intensivo, geralmente com quimioterapia. Nos últimos anos, boa parte da rotina dele — e da família — tem sido dentro do hospital.

Ao lado da cama, como sempre, estava sua mãe. Uma mulher forte, serena, presente. Companheira fiel em cada etapa do tratamento. Voltei ao quarto de isolamento (ambiente reservado para pacientes imunossuprimidos, onde o controle de infecções precisa ser rigoroso) por volta das 20h para administrar a medicação da noite. Abri a porta e me deparei com uma cena diferente: havia bolo, refrigerante e até um cachorro-quente. Sem entender, perguntei, surpreso: “Olha, é uma festa?”

Com um sorriso tranquilo, a mãe respondeu: “Hoje é meu aniversário”. Dei parabéns com o coração apertado e admirado. Ela completou: “Já que estamos no hospital, temos que comemorar. A Páscoa foi aqui. Meu aniversário, aqui. E o Dia das Mães, provavelmente também será aqui. Mas estamos ao lado do nosso filho, e isso é o mais importante.”

O paciente, que mais cedo mal aceitava a dieta oral, estava agora com um cachorro-quente nas mãos, sorrindo. A fome voltou na hora certa. O amor também alimenta.

Essa noite me ensinou que a vida pode florescer até nos corredores mais silenciosos. E que amor de mãe transforma qualquer quarto de hospital em lar.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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