Na quinta-feira, dia 08, perdi minha primeira paciente como Técnico de Enfermagem. Foi a primeira vez que o silêncio de um quarto me doeu. Conheci Dona Ana, 62 anos, logo que comecei no hospital, há três meses. Ela era acompanhada por outra colega, mas, sempre que precisava de algo e a campainha tocava, eu atendia: “meu filho, o soro acabou”, “estou com dor”. E assim nasceu um cuidado que foi além da escala.
Há cerca de 30 dias ela foi para o leito de isolamento. Tinha adquirido uma bactéria multirresistente do trato urinário — um tipo de infecção grave, que não responde aos antibióticos comuns. A partir daí, passamos a nos ver a cada dois dias. No início, ela ainda conversava, dava aquele sorriso fraco mas verdadeiro. Depois, com a piora do quadro, entramos com medidas hospitalares de conforto — ações que não curam, mas aliviam, como controlar a dor, hidratar os lábios, ajeitar o travesseiro, tocar a mão com respeito.
No dia da sua morte, cheguei para o plantão e perguntei à filha, que não saía de perto do quarto. A médica já havia dito que era questão de horas. Ela me olhou com olhos marejados: “o que a gente faz agora?” Respirei fundo e disse: “Do nosso lado, oferecemos conforto. Do seu, se tiver algo pra dizer, diga. A audição é um dos últimos sentidos a partir. E depois, faça uma oração.”
Ela me abraçou e prometeu que faria. Fui aplicar a medicação e deixei espaço para esse momento delas. Meia hora depois, a campainha tocou. Coração acelerou. Leito 211. Entrei no quarto. A filha disse: “acho que acabou tudo”. Sem pulso. Sem respiração. Fiz o protocolo. Chamei a enfermeira. Depois a médica.
Ao final, voltei ao quarto. A filha me abraçou e disse: “fiz o que você sugeriu. Pedi perdão, perdoei. E então ela partiu em paz. Você me ajudou a deixá-la ir.”
Naquele dia, aprendi que cuidar é também saber deixar partir.
Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem
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