Diário de um Técnico de Enfermagem – O Reconhecimento do Filho

Na noite de ontem, uma dessas que parecem mais longas no plantão, fui surpreendido por um gesto simples, mas carregado de emoção. O filho do seu Aquiles, de 62 anos, paciente que enfrentava bravamente o tratamento contra a leucemia — uma doença que ataca as células sanguíneas e compromete a produção normal de glóbulos brancos — veio até o posto de enfermagem para informar que o pai havia acabado de falecer.

Chegou com passos firmes, mas olhos marejados, e perguntou à minha colega:
— Onde está o rapaz de Veranópolis?

Assim que ouvi, saí da outra sala e fui ao seu encontro. Ele olhou para mim e disse:
— Marcelo, o pai faleceu agora no posto 2B.

Estendi a mão para dar meus sentimentos e, antes que eu dissesse qualquer coisa, ele continuou:
— Vim aqui agradecer pelos seus cuidados com ele. Seu carinho, seu jeito alegre… o pai gostava de ser atendido por você. Sempre comentava. Você entrava no quarto brincando, falando de futebol…

Ele sorriu, entre o luto e a memória viva, e relembrou um momento que nem eu imaginava ter marcado tanto:
— Nunca vou esquecer aquele dia que você entrou no quarto dizendo: “Cheguei no Baile da Bergamota!” O pai riu tanto… e quando você falou “tá boa a música, aumenta o volume”, e começou a tocar aquela música gaúcha antiga… era a preferida dele. Aquilo ficou com a gente.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Apertei sua mão com firmeza e lhe disse o que o momento pedia:
— Obrigado por compartilhar isso. Ele também me marcou.

Naquele instante, compreendi — mais uma vez — que a técnica salva, mas é o afeto que cura por dentro. O cuidado vai além das medicações e protocolos. Às vezes, um sorriso, uma piada simples ou uma música querida se tornam bálsamos no fim da estrada.

Essa é a verdadeira essência da Enfermagem: ser ponte entre o sofrimento e o alívio, mesmo quando não há mais cura, mas ainda há muito o que cuidar.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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