Diário de um Técnico de Enfermagem – Uma quase namorada de 89 anos

Cheguei para mais um plantão noturno na unidade de internação do SUS, naquele ritmo de quem já conhece bem a rotina: colocar os EPIs, separar materiais, checar os dados dos paciente e iniciar a primeira rodada de sinais vitais. Seis pacientes sob meus cuidados naquela noite, e como de costume, comecei pelo quarto 4 — um leito coletivo feminino, onde ficam pacientes em tratamento ou recuperação cirúrgica.

No leito 4A encontrei dona Maria, uma senhora de 89 anos, cabelos brancos e sorriso fácil, acompanhada da filha. Assim que entrei, ela soltou um “boa noite, doutor!” com aquela simpatia que aquece o coração. Sorri e me apresentei: “Dona Maria, apesar dos cabelos grisalhos, ainda não sou doutor, viu? Sou o Marcelo, técnico de enfermagem, e vou cuidar da senhora essa noite.” Ela riu e respondeu: “Ah tá, que bom então!”

Enquanto aferia seus sinais — todos estáveis — ela puxou assunto, quis saber onde eu morava, fazia perguntas com aquele jeitinho curioso de quem gosta de conversar. Então, entre uma medição e outra, brinquei: “Já vou avisando, dona Maria: sou casado e não vou cair na sua conversa, viu?” Ela ficou sem entender por um segundo, e eu expliquei: “É que a última paciente nesse leito, uma senhora de 103 anos, me pediu em namoro! Demorei pra convencer ela de que não dava…”

Dona Maria e a filha caíram na risada. “Pode ficar tranquilo, meu filho. Não estou procurando namorado… por enquanto!”, disse ela, devolvendo a piada com elegância.

Dois dias depois, voltei ao plantão. Fui até o leito 4A e, ao cumprimentá-las, a filha anunciou com bom humor: “Ô Marcelo, tua namorada vai te deixar, estamos indo embora agora.” Entrei na brincadeira: “É sempre assim… prometem mundos e fundos e depois abandonam a gente!”

Nos despedimos com carinho. Dona Maria, com os olhos marejados de gratidão, disse: “Obrigada pelo atendimento, me senti bem melhor com nossas piadas.” E completou: “Quando passar por Faria Lemos, convida tua esposa pra tomar um café conosco. Vai ser um prazer receber vocês.” Agradeci e prometi: “Deixa o verão chegar, dona Maria. Um dia apareço por lá.”

Histórias como essa são lembretes silenciosos de que, muitas vezes, o que mais cura é o afeto. Não importa se temos medicamentos ou equipamentos de última geração — um olhar humano, uma piada despretensiosa ou um gesto gentil podem ser o verdadeiro remédio. Entre curativos e risadas, nasce algo maior: uma amizade que, mesmo breve, deixa marcas que o tempo não apaga. Porque cuidar é, antes de tudo, criar vínculos.

Por Marcelo Marques

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