Diário de um Técnico de Enfermagem – “Era só um rádio… ou um pedido de socorro?”

Era uma noite fria de inverno, e o hospital já estava em silêncio. Mas em um dos leitos, um paciente se agitava, dizendo que iria fugir pela janela do segundo andar. Dizia que precisava ir embora, que não aguentava mais.

A equipe ficou em alerta. Trancamos a janela, chamamos a manutenção e reforçamos a segurança. Mas algo me dizia que, por trás daquela ameaça, havia um pedido de ajuda.

Fui até o quarto conversar. Era um homem com uma condição clínica delicada, mas o que mais pesava nele era invisível: era o abandono. Ex-etilista, em recuperação do alcoolismo, havia sido deixado para trás por familiares e amigos. Estava só.

Perguntei com calma:
— Amigo, por que essa agitação?
— Eu só queria conversar… ou ter um radinho. Já estou há dias aqui, sozinho, e o silêncio me faz pensar besteira.

Voltei ao posto, peguei meu celular e retornei:
— Que rádio você quer ouvir?
Ele, confuso, perguntou se eu estava brincando.
— Não. Vou deixar aqui na mesa, carregando, e você escolhe a estação que quiser. Só quero que se acalme.

Ele escolheu uma rádio sertaneja. Ficou ali, quieto, ouvindo, como se cada canção dissesse que ele ainda era humano, ainda merecia ser escutado.

À meia-noite, pedi o celular de volta para o intervalo, prometendo que depois devolveria.
Mas quando voltei, ele dormia. Um sono calmo, sereno — o primeiro em dias.

Mais do que medicamentos, aquele homem precisava de presença. De alguém que visse além do prontuário. De alguém que entendesse que um rádio podia ser mais poderoso que um sedativo.

Acredito que nem toda dor é física. Às vezes, o que acalma a alma é ser ouvido, mesmo sem dizer uma palavra. E, no fim das contas, talvez o maior cuidado que podemos oferecer seja simplesmente estar ali.

Por Marcelo Marques

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