Hoje cuidei de Dona Helena, 51 anos. Uma mulher de olhar firme, mas que carrega no corpo e na história as marcas de uma batalha intensa contra o câncer de ovário.
Ela está no pós-operatório de uma histerectomia total, resultado de um longo caminho que envolveu AITs prévios, diabetes tipo 2, hipertensão e uma vida marcada por cirurgias.
Quando entrei no quarto, encontrei-a consciente, orientada e comunicativa. Não relatava dores, apenas um cansaço silencioso que não precisava de palavras.
Os drenos laterais, a bolsa de colostomia e a sonda vesical falavam por si: o corpo ainda se recupera de uma guerra recente. A nutrição parenteral seguia constante, gotejando vida pelas vias de um cateter venoso central, instalado na jugular direita.
Enquanto eu aferia seus sinais vitais e trocava a roupa de cama, ela olhou para mim e disse:
— Sabe, Marcelo, quando me disseram que eu teria que passar por tudo isso, eu pensei que não aguentaria…
Eu parei o que fazia, olhei nos olhos dela e respondi:
— Mas você está aqui. E isso já mostra que é mais forte do que imaginava.
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas carregado de gratidão.
— Força a gente descobre que tem quando não tem outra escolha, né?
Reflexão
Enquanto ajeitava as grades do leito, pensei sobre como a enfermagem vai além de técnicas e protocolos. É presença. É oferecer conforto onde a dor insiste. É ouvir mais do que falar. É estar ali, não apenas cuidando do corpo, mas ajudando o coração a acreditar que a vida continua — mesmo entre cicatrizes.
Por Marcelo Marques
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