Hoje escrevo com o coração apertado. Perdi minha paciente alegre, guerreira e otimista: a Luci, como carinhosamente a chamava. Ficamos juntos por cerca de um mês na unidade de internação do SUS, mas a intensidade desse tempo fez parecer que nos conhecíamos há anos.
Ela enfrentava há três anos a dura batalha contra um câncer de mama. Quando nos conhecemos, já no final de sua luta, percebi de imediato a força que carregava. Entrei no quarto, me apresentei com alegria, e ela retribuiu com um sorriso cheio de fé. Durante a aferição dos sinais vitais, conversamos sobre seu tratamento. Falava das dores e das batalhas vencidas, mas sempre com esperança. Dizia acreditar que aquela também seria superada.
As noites ao lado de Luci eram únicas. No início do plantão, às 19h, o quarto parecia uma festa — cheio de familiares, bolos, pizzas, chocolates e risadas. Mas conforme a madrugada avançava, a realidade da doença se impunha. Entre chamados para medicação e crises de dor, lá estava ela, firme, acreditando que tudo não passava de uma fase e que logo voltaria à vida plena, curada pela graça do Senhor.
Numa dessas madrugadas, ela e sua filha me mostraram fotos no celular: viagens, encontros de família, momentos de felicidade antes da doença. “Viu, Marcelo, como eu era linda?”, disse sorrindo. Eu respondi: “Você continua linda, Luci, apenas está vivendo outra fase”. Ela sorriu e retrucou: “Vou voltar à boa fase em breve. Tu vai ver. E vou te convidar para almoçar lá em casa com minha família. Quero você lá, com sua esposa. Já está combinado”. Eu prometi que iria.
Na sexta-feira passada foi a última vez que a vi. Estava radiante, pois no sábado iria para casa. Nos despedimos, mas para ela não era adeus, era um “até logo”.
Hoje, no entanto, recebi a notícia de que Luci partiu. Deus a chamou para junto Dele. E me dói, mas também me conforta saber que agora descansa ao lado do Pai, livre da dor, com a mesma alegria que sempre carregou.
Perdi uma paciente, mas ganhei uma lição eterna: a fé e o amor podem transformar até os dias mais difíceis em momentos de luz.