Diário de um Técnico de Enfermagem – Doutor sem CRM

Desde o estágio no Hospital São Peregrino, em Veranópolis, já acontecia: alguns pacientes insistiam em me chamar de doutor. Achei que isso ficaria no passado, mas no Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, onde trabalho há oito meses, a história só ganhou força.

Quase toda noite de plantão acontece a cena clássica: chego ao leito, me apresento com toda a calma — “Boa noite, eu sou o Marcelo, técnico de enfermagem”. O paciente, geralmente idoso, não se contém: “Mas doutor, o que será que eu tenho?” Eu explico que não sou médico, mas não adianta. Para não prolongar o mal-entendido, deixo rolar. No fim das contas, até ajuda: muitos idosos seguem melhor as orientações acreditando que vêm de um “doutor”. Faz parte do jogo e do cuidado.

A brincadeira foi além dos corredores. A turma da Van que transporta os funcionários já pegou gosto: “Só senta na frente quem é doutor”. Outra completa: “Claro, tem o Dr na frente do nome, ele é importante”. Risadas garantidas a cada viagem.

Essa semana mandei no grupo da Enfermagem que não viajaria de Van. Não deu outra: “Claro, o doutor não vai de Van, vai de Veloster”. Entrei na onda: respondi que tinha compromisso no Rio… e logo corrigi: no Rio das Antas! Gargalhada geral.

Entre pacientes e colegas, parece que não tem volta: virei o “Doutor Marcelo”. Uns dizem que é pela “pinta” de doutor, outros botam a culpa nos cabelos grisalhos. Eu levo na esportiva. Afinal, ser doutor sem CRM pode até ser uma piada, mas o que vale mesmo é o respeito e a confiança que cada plantão constrói.

Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem — A Vovó e a Nebulização da Resistência

No meu plantão recebi uma paciente de 71 anos, trazida pelo SAMU após crise de dispneia, tosse e sibilos. Já havia recebido terbutalina SC e doses de salbutamol no pré-hospitalar, com melhora parcial. No leito, encontrei-a prostrada, confusa, taquipneica leve, com sibilos bilaterais marcantes, mas sem febre. O médico definiu conduta de otimizar broncodilatadores, iniciar antibiótico, solicitar painel viral, acionar fisioterapia respiratória e internar em enfermaria para manejo máximo no leito.

As orientações para a equipe de enfermagem foram diretas: monitorar continuamente SpO₂, (saturação periférica de oxigênio) é a porcentagem de hemoglobina no sangue que está carregada de oxigênio, ou seja, a quantidade de oxigênio que os glóbulos vermelhos estão transportando em relação à capacidade total, frequência respiratória e ritmo cardíaco; observar efeitos colaterais dos broncodilatadores; manter oxigenoterapia conforme prescrição; administrar nebulizações seriadas com associação de broncodilatadores; iniciar corticoide sistêmico; cuidar da hidratação e estar atentos ao risco de delirium e quedas.

Ao iniciar minha assistência, iniciei com a instalação do oxigênio suplementar. Expliquei cada passo:
— Dona Maria, vou colocar essa máscara, ela vai ajudar a senhora a respirar melhor, tudo bem?
— Tá certo, meu filho… só me ajude a não sufocar.

Realizei as nebulizações, permanecendo ao lado para observar resposta clínica.
— Vai sentir uma fumacinha entrando, mas é para abrir seus pulmões, combinado?
— Se aliviar, eu agradeço. É ruim demais essa falta de ar.

Ajustei o leito em posição confortável para facilitar a ventilação, incentivei hidratação oral quando possível e registrei cada cuidado prestado. Mantive vigilância constante, avaliando melhora da paciente, checando saturação e monitorando riscos de infecção ou queda.

Encerrando o turno, percebi como pequenos gestos — segurar a mão durante a nebulização, ajustar o travesseiro, explicar cada detalhe — foram essenciais para dar segurança e conforto a uma paciente tão frágil. Naquele dia, a vovó resistente respirou um pouco melhor, e eu saí com a sensação de ter feito diferença.

Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem – A vesícula rebelde do Plantão

No plantão de dias atrás, acompanhei uma paciente de 48 anos, com um histórico cirúrgico extenso: abdominoplastia, mamoplastia, lipoaspiração e histerectomia. Além disso, já havia enfrentado um tromboembolismo pulmonar, o que tornava seu quadro ainda mais delicado. Ela me relatou, com expressão cansada:
— Essa dor não me larga há dias… parece que atravessa até as costas – disse.

Apesar do incômodo, encontrava-se estável, sem febre, caminhando pelo quarto e aceitando bem a alimentação. Os exames de imagem trouxeram a explicação: múltiplos microcálculos na vesícula e cálculos no colédoco — um caso de coledocolitíase obstrutiva. O plano médico foi mantê-la em observação, realizar exames laboratoriais de rotina e aguardar vaga para CPRE, procedimento endoscópico para retirada dos cálculos.

Na reunião com a enfermeira, reforçamos pontos críticos: destacar a alergia à metoclopramida no prontuário, monitorizar sinais vitais de forma rigorosa, estar atentos a icterícia, febre ou dor súbita mais intensa, além de manter jejum caso surgisse vaga para o procedimento. Foi solicitado também cuidado especial com analgesia e investigação da cefaleia que a paciente relatava.

No meu turno, aferi os sinais vitais — todos dentro da normalidade — e registrei cada dado. Aproveitei para orientar:
— Se notar dor diferente, febre ou se a pele começar a ficar amarelada, chame a equipe imediatamente.
Ela me olhou firme e respondeu:
— Pode deixar, sei que aqui estou em boas mãos.

Depois a equipe do laboratório realizou a coleta dos exames solicitados: função hepática, amilase/lipase, hemograma e coagulograma. Preparei analgesia conforme prescrição, garantindo conforto sem riscos. Também reforcei com meus colegas a contraindicação do uso de metoclopramida, ponto crucial para a segurança dela. Mantive vigilância próxima, avaliando dor, aceitação da dieta até o jejum e qualquer sinal de complicação.

Terminei o plantão com a sensação de missão cumprida. Em situações como essa, cada detalhe importa: um registro feito no tempo certo, uma orientação clara, um cuidado vigilante. Até que o procedimento definitivo seja realizado, é esse olhar atento que garante a segurança do paciente — e, no fim, faz toda a diferença.

Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem – A despedida de Luci

Hoje escrevo com o coração apertado. Perdi minha paciente alegre, guerreira e otimista: a Luci, como carinhosamente a chamava. Ficamos juntos por cerca de um mês na unidade de internação do SUS, mas a intensidade desse tempo fez parecer que nos conhecíamos há anos.

Ela enfrentava há três anos a dura batalha contra um câncer de mama. Quando nos conhecemos, já no final de sua luta, percebi de imediato a força que carregava. Entrei no quarto, me apresentei com alegria, e ela retribuiu com um sorriso cheio de fé. Durante a aferição dos sinais vitais, conversamos sobre seu tratamento. Falava das dores e das batalhas vencidas, mas sempre com esperança. Dizia acreditar que aquela também seria superada.

As noites ao lado de Luci eram únicas. No início do plantão, às 19h, o quarto parecia uma festa — cheio de familiares, bolos, pizzas, chocolates e risadas. Mas conforme a madrugada avançava, a realidade da doença se impunha. Entre chamados para medicação e crises de dor, lá estava ela, firme, acreditando que tudo não passava de uma fase e que logo voltaria à vida plena, curada pela graça do Senhor.

Numa dessas madrugadas, ela e sua filha me mostraram fotos no celular: viagens, encontros de família, momentos de felicidade antes da doença. “Viu, Marcelo, como eu era linda?”, disse sorrindo. Eu respondi: “Você continua linda, Luci, apenas está vivendo outra fase”. Ela sorriu e retrucou: “Vou voltar à boa fase em breve. Tu vai ver. E vou te convidar para almoçar lá em casa com minha família. Quero você lá, com sua esposa. Já está combinado”. Eu prometi que iria.

Na sexta-feira passada foi a última vez que a vi. Estava radiante, pois no sábado iria para casa. Nos despedimos, mas para ela não era adeus, era um “até logo”.

Hoje, no entanto, recebi a notícia de que Luci partiu. Deus a chamou para junto Dele. E me dói, mas também me conforta saber que agora descansa ao lado do Pai, livre da dor, com a mesma alegria que sempre carregou.

Perdi uma paciente, mas ganhei uma lição eterna: a fé e o amor podem transformar até os dias mais difíceis em momentos de luz.

Por Marcelo Marques
@marcelodaenfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre Cicatrizes e Coragem

Hoje cuidei de Dona Helena, 51 anos. Uma mulher de olhar firme, mas que carrega no corpo e na história as marcas de uma batalha intensa contra o câncer de ovário.

Ela está no pós-operatório de uma histerectomia total, resultado de um longo caminho que envolveu AITs prévios, diabetes tipo 2, hipertensão e uma vida marcada por cirurgias.

Quando entrei no quarto, encontrei-a consciente, orientada e comunicativa. Não relatava dores, apenas um cansaço silencioso que não precisava de palavras.

Os drenos laterais, a bolsa de colostomia e a sonda vesical falavam por si: o corpo ainda se recupera de uma guerra recente. A nutrição parenteral seguia constante, gotejando vida pelas vias de um cateter venoso central, instalado na jugular direita.

Enquanto eu aferia seus sinais vitais e trocava a roupa de cama, ela olhou para mim e disse:
— Sabe, Marcelo, quando me disseram que eu teria que passar por tudo isso, eu pensei que não aguentaria…

Eu parei o que fazia, olhei nos olhos dela e respondi:
— Mas você está aqui. E isso já mostra que é mais forte do que imaginava.

Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas carregado de gratidão.
— Força a gente descobre que tem quando não tem outra escolha, né?

Reflexão
Enquanto ajeitava as grades do leito, pensei sobre como a enfermagem vai além de técnicas e protocolos. É presença. É oferecer conforto onde a dor insiste. É ouvir mais do que falar. É estar ali, não apenas cuidando do corpo, mas ajudando o coração a acreditar que a vida continua — mesmo entre cicatrizes.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – “Era só um rádio… ou um pedido de socorro?”

Era uma noite fria de inverno, e o hospital já estava em silêncio. Mas em um dos leitos, um paciente se agitava, dizendo que iria fugir pela janela do segundo andar. Dizia que precisava ir embora, que não aguentava mais.

A equipe ficou em alerta. Trancamos a janela, chamamos a manutenção e reforçamos a segurança. Mas algo me dizia que, por trás daquela ameaça, havia um pedido de ajuda.

Fui até o quarto conversar. Era um homem com uma condição clínica delicada, mas o que mais pesava nele era invisível: era o abandono. Ex-etilista, em recuperação do alcoolismo, havia sido deixado para trás por familiares e amigos. Estava só.

Perguntei com calma:
— Amigo, por que essa agitação?
— Eu só queria conversar… ou ter um radinho. Já estou há dias aqui, sozinho, e o silêncio me faz pensar besteira.

Voltei ao posto, peguei meu celular e retornei:
— Que rádio você quer ouvir?
Ele, confuso, perguntou se eu estava brincando.
— Não. Vou deixar aqui na mesa, carregando, e você escolhe a estação que quiser. Só quero que se acalme.

Ele escolheu uma rádio sertaneja. Ficou ali, quieto, ouvindo, como se cada canção dissesse que ele ainda era humano, ainda merecia ser escutado.

À meia-noite, pedi o celular de volta para o intervalo, prometendo que depois devolveria.
Mas quando voltei, ele dormia. Um sono calmo, sereno — o primeiro em dias.

Mais do que medicamentos, aquele homem precisava de presença. De alguém que visse além do prontuário. De alguém que entendesse que um rádio podia ser mais poderoso que um sedativo.

Acredito que nem toda dor é física. Às vezes, o que acalma a alma é ser ouvido, mesmo sem dizer uma palavra. E, no fim das contas, talvez o maior cuidado que podemos oferecer seja simplesmente estar ali.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Uma quase namorada de 89 anos

Cheguei para mais um plantão noturno na unidade de internação do SUS, naquele ritmo de quem já conhece bem a rotina: colocar os EPIs, separar materiais, checar os dados dos paciente e iniciar a primeira rodada de sinais vitais. Seis pacientes sob meus cuidados naquela noite, e como de costume, comecei pelo quarto 4 — um leito coletivo feminino, onde ficam pacientes em tratamento ou recuperação cirúrgica.

No leito 4A encontrei dona Maria, uma senhora de 89 anos, cabelos brancos e sorriso fácil, acompanhada da filha. Assim que entrei, ela soltou um “boa noite, doutor!” com aquela simpatia que aquece o coração. Sorri e me apresentei: “Dona Maria, apesar dos cabelos grisalhos, ainda não sou doutor, viu? Sou o Marcelo, técnico de enfermagem, e vou cuidar da senhora essa noite.” Ela riu e respondeu: “Ah tá, que bom então!”

Enquanto aferia seus sinais — todos estáveis — ela puxou assunto, quis saber onde eu morava, fazia perguntas com aquele jeitinho curioso de quem gosta de conversar. Então, entre uma medição e outra, brinquei: “Já vou avisando, dona Maria: sou casado e não vou cair na sua conversa, viu?” Ela ficou sem entender por um segundo, e eu expliquei: “É que a última paciente nesse leito, uma senhora de 103 anos, me pediu em namoro! Demorei pra convencer ela de que não dava…”

Dona Maria e a filha caíram na risada. “Pode ficar tranquilo, meu filho. Não estou procurando namorado… por enquanto!”, disse ela, devolvendo a piada com elegância.

Dois dias depois, voltei ao plantão. Fui até o leito 4A e, ao cumprimentá-las, a filha anunciou com bom humor: “Ô Marcelo, tua namorada vai te deixar, estamos indo embora agora.” Entrei na brincadeira: “É sempre assim… prometem mundos e fundos e depois abandonam a gente!”

Nos despedimos com carinho. Dona Maria, com os olhos marejados de gratidão, disse: “Obrigada pelo atendimento, me senti bem melhor com nossas piadas.” E completou: “Quando passar por Faria Lemos, convida tua esposa pra tomar um café conosco. Vai ser um prazer receber vocês.” Agradeci e prometi: “Deixa o verão chegar, dona Maria. Um dia apareço por lá.”

Histórias como essa são lembretes silenciosos de que, muitas vezes, o que mais cura é o afeto. Não importa se temos medicamentos ou equipamentos de última geração — um olhar humano, uma piada despretensiosa ou um gesto gentil podem ser o verdadeiro remédio. Entre curativos e risadas, nasce algo maior: uma amizade que, mesmo breve, deixa marcas que o tempo não apaga. Porque cuidar é, antes de tudo, criar vínculos.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Posso confiar em você… ou o Google sabe mais?

Recentemente, prestei assistência a uma paciente de 32 anos, natural de Curitiba (PR), que veio visitar os sogros em Bento Gonçalves (RS) e acabou sendo hospitalizada às pressas. O diagnóstico? Cálculos biliares. A solução? Uma colecistectomia, cirurgia para retirada da vesícula biliar — um pequeno órgão que armazena bile e pode causar dores intensas quando inflamado ou obstruído por pedras.

Logo no primeiro contato, percebi que ela era do tipo “paciente Google”. Curiosa, atenta e cheia de perguntas sobre as medicações. A experiência que tive durante o estágio técnico na AVAEC, de Veranópolis, me ajudou a identificar o perfil: alguém que busca na internet antes de confiar em quem está ao seu lado.

Após aferir seus sinais e separar a medicação (analgésicos, antibióticos, antieméticos…), voltei ao leito preparado para a sabatina. E ela não decepcionou: “Posso tomar os dois juntos?”, “Isso não dá problema?”, “Li que esse remédio pode dar reação.”

Com calma, expliquei: “Moça, fique tranquila. Esse hospital tem mais de 100 anos. Temos uma equipe excelente e não faremos nada que te prejudique. Queremos sua recuperação para que volte logo para Curitiba.” Ainda assim, sugeri chamar a enfermeira para esclarecer tudo.

A enfermeira foi, explicou. A paciente aceitou. Pensei: agora ela entendeu. Mas dias depois, em conversa com outro acompanhante do quarto, escuto:

“Ela esperava vocês saírem e ia direto no Google ver se era verdade.”

A desconfiança dela não era falta de respeito — era medo, era controle, era o impulso de quem quer entender o próprio corpo e participar do cuidado. E isso também faz parte da enfermagem: acolher, escutar, orientar… e repetir, se for preciso.

Entre a dúvida do paciente e a certeza do Google, cabe ao técnico de enfermagem ser ponte entre a ciência, a empatia e a confiança.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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