A assistência a pacientes crônicos exige mais do que técnica — exige sensibilidade. Recentemente, passei a cuidar de uma paciente de 59 anos, com histórico de múltiplas internações e várias enfermidades, entre elas a insuficiência renal, que a obriga a fazer hemodiálise — um procedimento que substitui a função dos rins, filtrando o sangue para remover toxinas e o excesso de líquidos.
Ao chegar ao leito, me apresentei, fiz os procedimentos de praxe e pedi que me chamasse se precisasse de algo. Não demorou e a campainha tocou. A paciente, com náuseas, queixava-se, mas logo queria ir ao banheiro. Era obesa, o que exigia mais tempo e esforço físico. Após 30 minutos sem que fizesse suas necessidades, voltamos ao leito. Em seguida, novas queixas: ânsia de vômito, dor no braço, incômodo geral.
Ali, percebi: não era só dor física. Era solidão disfarçada de sintomas.
Como a rotina pedia agilidade, precisei ser firme e dizer que iria atender outros pacientes, mas que voltaria. Ela me segurou pelo braço, com sua audição e visão prejudicadas, e disse: “Você promete que volta? Vai voltar, né?” Respondi que sim.
Voltei como prometido. Mediquei e, para desviar seu foco da dor, puxei conversa. Ela contou sua vida com detalhes, como quem não tinha mais com quem partilhar memórias. Na última visita da noite, ela me disse:
“Marcelo, você gosta do que faz, né?”
Respondi que sim. E ela completou:
“Eu sei. Você me escuta. Por isso sei que gosta.”
Às vezes, a maior dor do paciente não está no corpo — está na alma, pedindo alguém que simplesmente escute.
Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem
.