Diário de um Técnico de Enfermagem: como um jantar me faz viajar pelo mundo

Por volta das 23h, chega o momento do meu jantar. No meio do plantão noturno, é essa pausa que me permite respirar fundo e, muitas vezes, viver momentos preciosos.

É nessa hora que costumo encontrar o novo amigo e colega Marcos, da gestão de fluxo. Sentamos à mesa, dividimos a refeição e conversamos sobre a vida, o trabalho e o mundo. São pequenos encontros que aquecem a alma.

Quando nossos horários não coincidem, sempre há outros colegas no refeitório. E é aí que começa uma das partes mais ricas do meu trabalho: as trocas culturais.

Gente de todo canto do Rio Grande do Sul, de diferentes estados do Brasil como Pará e Maranhão, e até de outros países, como o Haiti, sentam à mesa comigo. E eu, curioso por natureza, sempre puxo assunto — geralmente começando pela comida, que revela tanto sobre quem somos.

Essas conversas simples me fazem viajar sem sair do hospital. Falo sobre a vida na fronteira, aprendo tradições do Norte, histórias do Caribe, formas diferentes de ver o mundo e de encarar os desafios da vida e da profissão. Descubro semelhanças e celebro as diferenças.

No fundo, é nesse cotidiano que percebo o quanto a diversidade nos enriquece. O hospital, que muitas vezes é visto como um lugar de dor, também é um espaço de encontro, de aprendizado e de afeto.

O mais bonito de tudo é perceber que, mesmo com sotaques diferentes, idiomas variados ou costumes distintos, todos nós temos algo em comum: o desejo de viver, de cuidar, de trocar experiências e de seguir em frente com dignidade e respeito. A diversidade não nos separa — ela nos aproxima.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – uma amizade entre sinais vitais e recomeços

Há mais de 30 dias venho acompanhando um paciente de 48 anos, que chegou ao hospital agitado, em abstinência alcoólica. Ex-etilista — como chamamos quem teve histórico de consumo excessivo de álcool —, ele precisou de medicações para acalmar o corpo e a mente. A abstinência, que pode causar tremores, alucinações, agitação e até convulsões, é só uma das muitas faces do alcoolismo. Com o tempo, surgem também outras doenças: cirrose hepática, pancreatite, problemas cardíacos e até neurológicos.

Quando a tempestade passou, surgiu o homem por trás da dor. Lúcido, me chamou de “Gaudério”, por eu ser de Lavras do Sul, no coração do pampa gaúcho. Ele, um pedreiro, natural de Santo Ângelo, começou a compartilhar sua história. Falou do arrependimento pelas atitudes sob efeito da bebida, da separação, da distância das filhas. Disse que a solidão do leito era um castigo.

Mas Deus sempre coloca alguém na travessia. Um pastor o visita toda semana, levando frutas e palavras de fé. E eu, no meu jaleco, fui ouvindo, acolhendo, sem julgamentos. A cada plantão, a mesma saudação entre amigos:
— Como tá hoje, gaúderio?
— Tudo bueno, gaudério. Tô aqui lendo a Bíblia.

A alta se aproxima. Ele diz que está ansioso, que quer recomeçar. E eu disse o que o coração sentiu:
— Isso mesmo, gaudério. Foco na nova vida. Que as nossas conversas e a Palavra de Deus iluminem teu caminho.

No fim das contas, não é só a medicação que cura. Às vezes, um pouco de escuta, um apelido carinhoso e a fé no recomeço também fazem parte da receita.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Sentirei saudades da Dona Pitaia

Hoje não vou falar de doença. Vou falar de cura.

Neste último mês, como Técnico de Enfermagem, tive a honra de cuidar de uma senhora de 82 anos, que com o tempo a apelidei carinhosamente: Dona Pitaia.

Na primeira noite em que a atendi, tive que aplicar morfina — um analgésico forte, usado em casos de dor intensa, quando outros medicamentos não dão conta. Vi as lágrimas escorrendo dos olhos dela, e percebi que a dor ali era mais do que física. Diante do filho, ela chegou a dizer que não aguentaria que ia entregar os pontos.

Mas foi aí que entrou algo que não se compra em farmácia: o cuidado em equipe, o olhar humano. Disse a ela que eu estava ali pra ajudar, que não estava sozinha, que bastava chamar. E ela chamou — várias vezes — não só por ajuda, mas por companhia, por esperança.

A nossa equipe se uniu por ela. A enfermeira a chamava de “minha veinha” com um carinho que contagiava. Cada técnica que passava por aquele leito deixava um pedacinho de ânimo, um sorriso, um toque de humanidade.

E Dona Pitaia começou a reagir. Foi melhorando, recuperando forças. Um dia me disse: “Logo vou estar em casa com meus cachorros, graças a vocês”.

De lá em diante, era só alegria. A cada plantão, eu já sabia que ela ia perguntar da minha família e eu sempre respondia com um ditado campeiro, tipo “Mais faceira que lambari em sanga”.

Mas hoje à noite, ao iniciar o plantão, o leito estava vazio. Dona Pitaia teve alta. Foi embora, do jeitinho que sonhou: a tempo de passar a Páscoa com a família e os cachorros.

Fiquei ali parado, com o coração apertado e leve ao mesmo tempo. Porque esse é o poder do cuidado: ele não cura só com remédio, cura com presença, com escuta, com afeto.

E se alguém perguntar se vale a pena… eu respondo sem pensar duas vezes: Hoje Dona Pitaia está em casa, comendo a fruta que mais gosta. E eu sigo aqui, mais certo do que nunca, que cuidar é um ato de amor.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Foi assim, em uma dessas noites, que contraiu o HIV

Ser técnico de enfermagem vai muito além de medicação e procedimentos. Às vezes, é preciso oferecer algo mais: presença, escuta e humanidade.

Essa semana, conheci um paciente de 57 anos, diagnosticado com HIV. A AIDS, causada pelo vírus HIV, ainda carrega estigmas, mas os avanços no tratamento permitiram que muitas pessoas tenham qualidade de vida. O uso contínuo de antirretrovirais e o acompanhamento médico são essenciais. E nós, da enfermagem, temos papel fundamental nesse cuidado.

Durante o atendimento, percebi que ele estava tenso. Então, puxei assunto, de forma leve. Contei que sou de Lavras do Sul, lá do Pampa Gaúcho, quase na fronteira com o Uruguai. Falei que, há 20 anos, trabalhava com jornalismo e que só recentemente me formei como técnico de enfermagem. Ele abriu um sorriso.

Aos poucos, entre um cuidado e outro, ele compartilhou sua história. Foi representante comercial de uma grande marca de massas e biscoitos, viajou por todo o estado. Casado, com filhas, viveu intensamente — e, segundo ele mesmo, sem muitos limites. Foi assim, em uma dessas noites, que contraiu o HIV. Hoje, sozinho no hospital, ele ainda carrega leveza no olhar e sonha em morar na praia, levando uma vida tranquila.

Durante os atendimentos, sempre utilizo todos os EPIs: luvas, máscara, avental. Proteção para mim — e para ele, cuja imunidade está fragilizada. Expliquei isso com respeito, e ele compreendeu com gratidão.

Com o tempo, viramos amigos. Trocas sinceras, conselhos de vida, histórias de estrada e lições que não se aprendem em sala de aula. Porque, no fim, a técnica é essencial — mas é o afeto que transforma o cuidado em cura.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – A Van, o Plantão e a “Dona do Spotify”

A cada dois dias, às 17h, uma van começa sua jornada em Nova Prata, passa por Vila Flores e Veranópolis (RS), até chegar ao destino final: o Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, às 19h. É mais que um transporte — é quase um segundo plantão, só que sobre rodas.

Sou o único homem entre sete técnicas de enfermagem e o motorista. Embarco às 17h30, pronto para mais uma noite de trabalho. No trajeto, o papo é sempre animado: Shopee, Shein, vestidos de festa e cupons de desconto. Eu só observo — e aprendo mais do que você imagina.

Na volta, após 12 horas de cuidado, correria e atenção com os pacientes, o clima muda. O silêncio domina, alguns dormem, outros apenas fecham os olhos tentando recuperar o fôlego. Mas isso só vale até sexta.

Porque quando o relógio marca 7h de sábado e o retorno começa, tudo muda. É dia de folga, é sábado — e é o dia dela brilhar: a “Dona do Spotify”.

Com um grito animado de “vamos levantar o astral!”, ela transforma a van em pista de dança. Quem pensava em dormir já sabe: não vai rolar. O hino do sábado? Sempre o mesmo:

🎶 Perigosa e linda,
Jeito de bandida,
Mas com um toque sexy sedutor…
Perigosa e linda,
Uma bandida chamada amor!
🎶

A voz da banda Rainha ecoa mais uma vez e alguém reclama: “De novo essa música?” Ela responde, rindo: “Só eu tenho Spotify Premium. Então toca o que a maioria gosta!”

E assim seguimos: entre a rotina dura do hospital e os momentos leves na estrada. Porque ser Técnico de Enfermagem é também saber viver cada instante — até os cantados em coro, dentro de uma van.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre Soro e Sorrisos: O Caminhar de Dona Tereza

Hoje, às três horas da madrugada, o plantão me presenteou com mais do que apenas rotinas e medicações. Trouxe aprendizado, sensibilidade e afeto — daqueles que só se vive na linha de frente.

Dona Tereza (fictício) tem 82 anos e está internada há 15 dias com um quadro de infecção urinária. Essa condição, comum em idosos, ocorre quando bactérias invadem o trato urinário, causando febre, ardência ao urinar, fraqueza e, muitas vezes, confusão mental. O tratamento inclui antibióticos, hidratação e, claro, muito cuidado.

Nos primeiros dias, ela era só sorrisos e conversas animadas, cheia de esperança com a melhora. Mas nos últimos tempos, a ansiedade começou a pesar. Ela dizia: “Não estou me sentindo bem.” Como Técnico de Enfermagem, além dos cuidados físicos, também preciso estar atento ao emocional. Sugeri uma caminhada leve pelo setor, e ela topou. Voltou ao leito dizendo: “Estou me sentindo melhor.”

Minutos depois, lá estava ela me chamando de novo: queria caminhar mais. Eu sorri, expliquei que precisava atender outros pacientes, mas prometi voltar — e cumpri. Mais uma volta pelo corredor, mais uma dose de leveza. Ao retornar, ela me pediu para deitar. “Agora sim, me sinto bem melhor”, disse com um sorriso sereno.

Mais tarde, ouvi quando disse à filha: “Sabe, filha… ele é lá da fronteira. Dizem que o pessoal de lá é bravo, mas ele é um anjo.”

Saí do quarto com o coração leve. Às vezes, o melhor remédio não está na farmácia — está na escuta, no cuidado, no simples gesto de caminhar ao lado de alguém.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem: o matambre e a costela no armário

Durante os últimos 45 dias, acompanhei um paciente descendente de italianos, de 89 anos, diagnosticado com cistite. A cistite é uma inflamação da bexiga, geralmente causada por infecção bacteriana, que pode provocar dor ao urinar, urgência frequente e desconforto abdominal. Em pacientes idosos, exige atenção especial para evitar complicações.

Desde o primeiro dia, ele enfrentou o tratamento com um sorriso no rosto. Mesmo nos momentos mais difíceis, sempre tinha uma piada ou uma história para contar. Sua grande paixão era ouvir a rádio Difusora de Bento Gonçalves, acompanhando as notícias e as músicas que relembravam sua juventude. Enquanto ajustava o soro ou administrava os medicamentos, lá estava ele, cantarolando junto com os sucessos musicais que ecoavam pelo quarto.

Em um domingo de plantão, entre uma conversa e outra, perguntei brincando: “E aí, estava bom o churrasco do meio-dia?” Com um olhar maroto, ele respondeu: “Sim, comi, meu genro trouxe.” Então falei: “E guardou um pedaço para mim?” Sem hesitar, ele sorriu e disse: “Claro, tem um pedaço de matambre e uma costelinha ali no armário, é só pegar!”

Para minha surpresa, ao abrir o armário, lá estava realmente um prato bem arrumado com os pedaços de carne guardados com carinho. Foi um momento de risadas e cumplicidade, que reforçou ainda mais o vínculo criado ao longo do tratamento.

Esses momentos leves e espontâneos são a prova de que, na área da saúde, o vínculo entre profissional e paciente vai além do tratamento clínico. Com o tempo, criamos laços de amizade, compartilhamos histórias e aprendemos lições valiosas. O cuidado é uma via de mão dupla: enquanto cuidamos da saúde física dos pacientes, eles nos ensinam sobre resiliência, alegria e o verdadeiro sentido da vida.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: quando o amor fala mais alto

Durante dois plantões, acompanhei uma paciente de 92 anos, diagnosticada com demência. A demência não é uma doença única, mas um conjunto de sintomas que afetam a memória, o pensamento e a capacidade de realizar atividades diárias. O Alzheimer é a forma mais comum, mas existem outras, como a demência vascular e a demência por corpos de Lewy. Com o avanço da condição, o paciente pode apresentar desorientação, mudanças de humor e dificuldade em reconhecer até mesmo os familiares.

Ao lado dessa paciente estava seu filho, visivelmente aflito. Ele tentava conversar com a mãe, mas se frustrava quando ela não lembrava de algo ou quando repetia perguntas. No segundo plantão, ele me chamou para desabafar. “Eu não sei mais o que fazer. É como se minha mãe não fosse mais a mesma pessoa”, disse, com os olhos marejados.

Com calma, expliquei a ele que a demência muda a forma como a pessoa percebe o mundo, mas não apaga a essência de quem ela sempre foi. Disse que, naquele momento da vida, sua mãe precisava de paciência, amor e acolhimento, muito mais do que correções ou cobranças. “Ela pode não lembrar quem você é o tempo todo, mas ela sente quem você é. O carinho, o tom de voz, a presença… tudo isso é reconhecido de uma maneira diferente. E isso faz toda a diferença”, falei a ele.

Ele respirou fundo e segurou a mão da mãe com mais ternura. Talvez naquele momento tenha entendido que, mais do que resgatar memórias, era hora de criar momentos de paz para ela.

Para quem tem um familiar com demência, sei que o caminho pode ser difícil. Mas lembre-se: amor não é lembrado, é sentido. Mesmo que as palavras se percam, o afeto sempre encontra um jeito de permanecer.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem