Diário de um Técnico de Enfermagem: quando o amor fala mais alto

Durante dois plantões, acompanhei uma paciente de 92 anos, diagnosticada com demência. A demência não é uma doença única, mas um conjunto de sintomas que afetam a memória, o pensamento e a capacidade de realizar atividades diárias. O Alzheimer é a forma mais comum, mas existem outras, como a demência vascular e a demência por corpos de Lewy. Com o avanço da condição, o paciente pode apresentar desorientação, mudanças de humor e dificuldade em reconhecer até mesmo os familiares.

Ao lado dessa paciente estava seu filho, visivelmente aflito. Ele tentava conversar com a mãe, mas se frustrava quando ela não lembrava de algo ou quando repetia perguntas. No segundo plantão, ele me chamou para desabafar. “Eu não sei mais o que fazer. É como se minha mãe não fosse mais a mesma pessoa”, disse, com os olhos marejados.

Com calma, expliquei a ele que a demência muda a forma como a pessoa percebe o mundo, mas não apaga a essência de quem ela sempre foi. Disse que, naquele momento da vida, sua mãe precisava de paciência, amor e acolhimento, muito mais do que correções ou cobranças. “Ela pode não lembrar quem você é o tempo todo, mas ela sente quem você é. O carinho, o tom de voz, a presença… tudo isso é reconhecido de uma maneira diferente. E isso faz toda a diferença”, falei a ele.

Ele respirou fundo e segurou a mão da mãe com mais ternura. Talvez naquele momento tenha entendido que, mais do que resgatar memórias, era hora de criar momentos de paz para ela.

Para quem tem um familiar com demência, sei que o caminho pode ser difícil. Mas lembre-se: amor não é lembrado, é sentido. Mesmo que as palavras se percam, o afeto sempre encontra um jeito de permanecer.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre a Vida e o Amor

Hoje acompanhei o caso de uma paciente idosa (foto ilustrativa), vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O AVC ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido, podendo causar sequelas graves, como perda de movimentos, dificuldades na fala e comprometimento das funções vitais. No caso dela, a doença a levou a um estágio delicado, e agora estava em cuidados paliativos.

Os cuidados paliativos não buscam mais a cura, mas sim aliviar o sofrimento, oferecer conforto e dignidade ao paciente em seus últimos momentos. Como técnico de enfermagem, meu papel é garantir que ela não sinta dor, manter sua pele íntegra, auxiliar na higiene e, principalmente, proporcionar acolhimento tanto para ela quanto para seu filho, que a acompanha dia e noite.

Ele se desdobra entre carinho e cansaço, contando histórias, relembrando momentos felizes. “Ela sempre cuidou de mim. Agora é minha vez”, disse, enquanto ajeitava o cobertor dela com um olhar de quem não quer se despedir.

Estou começando a ver despedidas na minha profissão, mas sei, que cada uma me ensina algo novo sobre a vida. No hospital, lidamos com o começo e o fim da existência todos os dias. A morte pode parecer o fim, mas o amor que deixamos nos corações de quem fica continua vivo.

Antes de sair, disse ao filho: ela sente seu amor, e isso é o que realmente importa. Ele concordou, com os olhos cheios de lágrimas e um sorriso discreto.

A vida é breve, mas o cuidado e o amor são eternos. E, no fim, são essas marcas que realmente importam.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre a Dor e o Amor

Hoje atendi uma paciente jovem e bem-humorada, mas que estava sofrendo com uma dor intensa causada por cálculos renais (foto ilustrativa). O cálculo renal, também conhecido como pedra nos rins, é uma formação sólida de cristais que pode obstruir as vias urinárias, causando dores severas, náuseas e até febre.

Para aliviar o sofrimento, a medicação intravenosa era essencial, mas aí surgiu um desafio: ela tinha pavor de receber medicação pelo acesso venoso.

“Você tem certeza que esse acesso não é um túnel sem fim?”, brincou, segurando o braço com receio.

Expliquei com calma o procedimento, garantindo que seria rápido e seguro. “Se eu sobreviver a isso, posso casar tranquila!”, disse rindo, tentando esconder o medo.

Entre uma piada e outra, fui realizando os cuidados necessários. Administrei o analgésico, monitorei os sinais vitais e orientei sobre a hidratação, essencial para ajudar a eliminação dos cálculos.

Mesmo com a dor, ela não perdia a alegria. “Se eu conseguir expelir essas pedras, posso pedir desconto no salão de festas?”, brincou novamente, fazendo até o noivo rir ao lado.

Ao final da assistência, já mais confortável e com menos dor, olhou para mim e perguntou: você acha que vou conseguir dançar no casamento? Respondi sem hesitar: com essa energia toda, acho que vai até abrir a pista!

Antes de sair, desejei a ela e ao noivo uma vida cheia de amor e parceria. Que vocês enfrentem juntos qualquer desafio, com o mesmo bom humor de hoje. Afinal, depois de vencer uma pedra nos rins, qualquer pedra no caminho será pequena.

Ela riu e, com brilho nos olhos, disse: isso aí! Agora é só esperar pelo “sim”!

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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