Diário de um Técnico de Enfermagem: o matambre e a costela no armário

Durante os últimos 45 dias, acompanhei um paciente descendente de italianos, de 89 anos, diagnosticado com cistite. A cistite é uma inflamação da bexiga, geralmente causada por infecção bacteriana, que pode provocar dor ao urinar, urgência frequente e desconforto abdominal. Em pacientes idosos, exige atenção especial para evitar complicações.

Desde o primeiro dia, ele enfrentou o tratamento com um sorriso no rosto. Mesmo nos momentos mais difíceis, sempre tinha uma piada ou uma história para contar. Sua grande paixão era ouvir a rádio Difusora de Bento Gonçalves, acompanhando as notícias e as músicas que relembravam sua juventude. Enquanto ajustava o soro ou administrava os medicamentos, lá estava ele, cantarolando junto com os sucessos musicais que ecoavam pelo quarto.

Em um domingo de plantão, entre uma conversa e outra, perguntei brincando: “E aí, estava bom o churrasco do meio-dia?” Com um olhar maroto, ele respondeu: “Sim, comi, meu genro trouxe.” Então falei: “E guardou um pedaço para mim?” Sem hesitar, ele sorriu e disse: “Claro, tem um pedaço de matambre e uma costelinha ali no armário, é só pegar!”

Para minha surpresa, ao abrir o armário, lá estava realmente um prato bem arrumado com os pedaços de carne guardados com carinho. Foi um momento de risadas e cumplicidade, que reforçou ainda mais o vínculo criado ao longo do tratamento.

Esses momentos leves e espontâneos são a prova de que, na área da saúde, o vínculo entre profissional e paciente vai além do tratamento clínico. Com o tempo, criamos laços de amizade, compartilhamos histórias e aprendemos lições valiosas. O cuidado é uma via de mão dupla: enquanto cuidamos da saúde física dos pacientes, eles nos ensinam sobre resiliência, alegria e o verdadeiro sentido da vida.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

.

Diário de um Técnico de Enfermagem – O churrasco dos guri

Intervalo no hospital é coisa sagrada, quando acontece, vira quase um evento. No refeitório, por cerca de trinta minutos, a equipe se reúne para jantar e colocar a conversa em dia.

O Técnico de Enfermagem Marcelo, lá de Lavras do Sul, sempre puxa o assunto do pampa gaúcho, com suas tradições e festas. Da Gestão de Fluxo, Marcos e Samantha, de São Francisco de Assis, juram que a melhor festa do Rio Grande do Sul acontece na Região Central do Estado. Já a enfermeira Jennifer, de São Borja, não perde a chance de enaltecer sua região.

Entre um prato de comida e outro, surgiu a ideia entre o Marcos e o Marcelo de fazer um churrasco e reunir a turma: “Bah, vamos fazer um churrasco dos guri! A gente só fala de tradição e carne boa, mas nunca assamos nada juntos!” Todos concordaram e até convidaram Michel, o paulista recém-chegado de Santos. Ele, acostumado a praia e pastel de feira, ficou animado com a ideia.

O problema? Já se passaram 50 dias e o tal churrasco nunca saiu do papel. Cada intervalo de jantar é a mesma coisa:

“Vamos marcar pro fim de semana!”
“É, mas esse sábado não dá, tem plantão…”
“E domingo?”
“Domingo eu descanso, tchê!”

E assim, o churrasco segue sendo um mito hospitalar.

Michel, que trabalha no turno inverso até brincou pelo Whatsapp: “Acho que vou voltar pra Santos antes de ver essa carne assando!”

Mas no fundo, todos sabem: mais importante que o churrasco é a amizade que nasceu entre as refeições e os plantões. Porque no hospital, a vida é corrida, mas um intervalo bem aproveitado vale mais do que um espeto de picanha… ou quase!

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem
Jornalista