Diário de um Técnico de Enfermagem – A Van, o Plantão e a “Dona do Spotify”

A cada dois dias, às 17h, uma van começa sua jornada em Nova Prata, passa por Vila Flores e Veranópolis (RS), até chegar ao destino final: o Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, às 19h. É mais que um transporte — é quase um segundo plantão, só que sobre rodas.

Sou o único homem entre sete técnicas de enfermagem e o motorista. Embarco às 17h30, pronto para mais uma noite de trabalho. No trajeto, o papo é sempre animado: Shopee, Shein, vestidos de festa e cupons de desconto. Eu só observo — e aprendo mais do que você imagina.

Na volta, após 12 horas de cuidado, correria e atenção com os pacientes, o clima muda. O silêncio domina, alguns dormem, outros apenas fecham os olhos tentando recuperar o fôlego. Mas isso só vale até sexta.

Porque quando o relógio marca 7h de sábado e o retorno começa, tudo muda. É dia de folga, é sábado — e é o dia dela brilhar: a “Dona do Spotify”.

Com um grito animado de “vamos levantar o astral!”, ela transforma a van em pista de dança. Quem pensava em dormir já sabe: não vai rolar. O hino do sábado? Sempre o mesmo:

🎶 Perigosa e linda,
Jeito de bandida,
Mas com um toque sexy sedutor…
Perigosa e linda,
Uma bandida chamada amor!
🎶

A voz da banda Rainha ecoa mais uma vez e alguém reclama: “De novo essa música?” Ela responde, rindo: “Só eu tenho Spotify Premium. Então toca o que a maioria gosta!”

E assim seguimos: entre a rotina dura do hospital e os momentos leves na estrada. Porque ser Técnico de Enfermagem é também saber viver cada instante — até os cantados em coro, dentro de uma van.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

.

Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre Soro e Sorrisos: O Caminhar de Dona Tereza

Hoje, às três horas da madrugada, o plantão me presenteou com mais do que apenas rotinas e medicações. Trouxe aprendizado, sensibilidade e afeto — daqueles que só se vive na linha de frente.

Dona Tereza (fictício) tem 82 anos e está internada há 15 dias com um quadro de infecção urinária. Essa condição, comum em idosos, ocorre quando bactérias invadem o trato urinário, causando febre, ardência ao urinar, fraqueza e, muitas vezes, confusão mental. O tratamento inclui antibióticos, hidratação e, claro, muito cuidado.

Nos primeiros dias, ela era só sorrisos e conversas animadas, cheia de esperança com a melhora. Mas nos últimos tempos, a ansiedade começou a pesar. Ela dizia: “Não estou me sentindo bem.” Como Técnico de Enfermagem, além dos cuidados físicos, também preciso estar atento ao emocional. Sugeri uma caminhada leve pelo setor, e ela topou. Voltou ao leito dizendo: “Estou me sentindo melhor.”

Minutos depois, lá estava ela me chamando de novo: queria caminhar mais. Eu sorri, expliquei que precisava atender outros pacientes, mas prometi voltar — e cumpri. Mais uma volta pelo corredor, mais uma dose de leveza. Ao retornar, ela me pediu para deitar. “Agora sim, me sinto bem melhor”, disse com um sorriso sereno.

Mais tarde, ouvi quando disse à filha: “Sabe, filha… ele é lá da fronteira. Dizem que o pessoal de lá é bravo, mas ele é um anjo.”

Saí do quarto com o coração leve. Às vezes, o melhor remédio não está na farmácia — está na escuta, no cuidado, no simples gesto de caminhar ao lado de alguém.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem: o matambre e a costela no armário

Durante os últimos 45 dias, acompanhei um paciente descendente de italianos, de 89 anos, diagnosticado com cistite. A cistite é uma inflamação da bexiga, geralmente causada por infecção bacteriana, que pode provocar dor ao urinar, urgência frequente e desconforto abdominal. Em pacientes idosos, exige atenção especial para evitar complicações.

Desde o primeiro dia, ele enfrentou o tratamento com um sorriso no rosto. Mesmo nos momentos mais difíceis, sempre tinha uma piada ou uma história para contar. Sua grande paixão era ouvir a rádio Difusora de Bento Gonçalves, acompanhando as notícias e as músicas que relembravam sua juventude. Enquanto ajustava o soro ou administrava os medicamentos, lá estava ele, cantarolando junto com os sucessos musicais que ecoavam pelo quarto.

Em um domingo de plantão, entre uma conversa e outra, perguntei brincando: “E aí, estava bom o churrasco do meio-dia?” Com um olhar maroto, ele respondeu: “Sim, comi, meu genro trouxe.” Então falei: “E guardou um pedaço para mim?” Sem hesitar, ele sorriu e disse: “Claro, tem um pedaço de matambre e uma costelinha ali no armário, é só pegar!”

Para minha surpresa, ao abrir o armário, lá estava realmente um prato bem arrumado com os pedaços de carne guardados com carinho. Foi um momento de risadas e cumplicidade, que reforçou ainda mais o vínculo criado ao longo do tratamento.

Esses momentos leves e espontâneos são a prova de que, na área da saúde, o vínculo entre profissional e paciente vai além do tratamento clínico. Com o tempo, criamos laços de amizade, compartilhamos histórias e aprendemos lições valiosas. O cuidado é uma via de mão dupla: enquanto cuidamos da saúde física dos pacientes, eles nos ensinam sobre resiliência, alegria e o verdadeiro sentido da vida.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

.

Diário de um Técnico de Enfermagem: quando o amor fala mais alto

Durante dois plantões, acompanhei uma paciente de 92 anos, diagnosticada com demência. A demência não é uma doença única, mas um conjunto de sintomas que afetam a memória, o pensamento e a capacidade de realizar atividades diárias. O Alzheimer é a forma mais comum, mas existem outras, como a demência vascular e a demência por corpos de Lewy. Com o avanço da condição, o paciente pode apresentar desorientação, mudanças de humor e dificuldade em reconhecer até mesmo os familiares.

Ao lado dessa paciente estava seu filho, visivelmente aflito. Ele tentava conversar com a mãe, mas se frustrava quando ela não lembrava de algo ou quando repetia perguntas. No segundo plantão, ele me chamou para desabafar. “Eu não sei mais o que fazer. É como se minha mãe não fosse mais a mesma pessoa”, disse, com os olhos marejados.

Com calma, expliquei a ele que a demência muda a forma como a pessoa percebe o mundo, mas não apaga a essência de quem ela sempre foi. Disse que, naquele momento da vida, sua mãe precisava de paciência, amor e acolhimento, muito mais do que correções ou cobranças. “Ela pode não lembrar quem você é o tempo todo, mas ela sente quem você é. O carinho, o tom de voz, a presença… tudo isso é reconhecido de uma maneira diferente. E isso faz toda a diferença”, falei a ele.

Ele respirou fundo e segurou a mão da mãe com mais ternura. Talvez naquele momento tenha entendido que, mais do que resgatar memórias, era hora de criar momentos de paz para ela.

Para quem tem um familiar com demência, sei que o caminho pode ser difícil. Mas lembre-se: amor não é lembrado, é sentido. Mesmo que as palavras se percam, o afeto sempre encontra um jeito de permanecer.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem: cuidando um “Guri de Uruguaiana”

Durante 15 dias, acompanhei um paciente de 59 anos nascido em Uruguaiana, na fronteira gaúcha, diagnosticado com pancreatite. A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode ser aguda ou crônica, geralmente causada pelo consumo excessivo de álcool, cálculos biliares ou outras condições de saúde. Os sintomas incluem dores abdominais intensas, náuseas e febre, exigindo tratamento cuidadoso e monitoramento constante.

Nos primeiros dias de internação, vi no olhar dele a preocupação não apenas com a doença, mas também com a saudade de casa, pois mora há 10 anos em Bento Gonçalves. Conversávamos todas as noites sobre a vida na fronteira gaúcha, sobre o vento minuano que sopra forte, os desfiles tradicionalistas e o chimarrão compartilhado entre amigos. Falávamos da lida no campo, dos bailes, das cavalgadas e da hospitalidade do povo fronteiriço. Era nesses momentos que o peso da doença parecia amenizar um pouco.

À medida que os dias passavam e o tratamento fazia efeito, percebi sua inquietação em voltar para sua terra natal. Mas também sabia que o compromisso com a saúde deveria vir em primeiro lugar. No meu último plantão com ele, deixei um conselho claro: “Quando voltar para Uruguaiana, não deixe de seguir o tratamento até o fim. Te cuida, vivente, que ainda tens muitas estradas para cruzar.”

Ele sorriu e apertou minha mão, como quem aceita um desafio. E assim seguimos, cada um com sua missão, mas sempre com a certeza de que, na jornada da vida, o cuidado e a amizade são laços que nunca se desfazem.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Foto: Prefeitura de Uruguaiana/Divulgação

.

Diário de um Técnico de Enfermagem – O churrasco dos guri

Intervalo no hospital é coisa sagrada, quando acontece, vira quase um evento. No refeitório, por cerca de trinta minutos, a equipe se reúne para jantar e colocar a conversa em dia.

O Técnico de Enfermagem Marcelo, lá de Lavras do Sul, sempre puxa o assunto do pampa gaúcho, com suas tradições e festas. Da Gestão de Fluxo, Marcos e Samantha, de São Francisco de Assis, juram que a melhor festa do Rio Grande do Sul acontece na Região Central do Estado. Já a enfermeira Jennifer, de São Borja, não perde a chance de enaltecer sua região.

Entre um prato de comida e outro, surgiu a ideia entre o Marcos e o Marcelo de fazer um churrasco e reunir a turma: “Bah, vamos fazer um churrasco dos guri! A gente só fala de tradição e carne boa, mas nunca assamos nada juntos!” Todos concordaram e até convidaram Michel, o paulista recém-chegado de Santos. Ele, acostumado a praia e pastel de feira, ficou animado com a ideia.

O problema? Já se passaram 50 dias e o tal churrasco nunca saiu do papel. Cada intervalo de jantar é a mesma coisa:

“Vamos marcar pro fim de semana!”
“É, mas esse sábado não dá, tem plantão…”
“E domingo?”
“Domingo eu descanso, tchê!”

E assim, o churrasco segue sendo um mito hospitalar.

Michel, que trabalha no turno inverso até brincou pelo Whatsapp: “Acho que vou voltar pra Santos antes de ver essa carne assando!”

Mas no fundo, todos sabem: mais importante que o churrasco é a amizade que nasceu entre as refeições e os plantões. Porque no hospital, a vida é corrida, mas um intervalo bem aproveitado vale mais do que um espeto de picanha… ou quase!

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem
Jornalista

Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre a Vida e o Amor

Hoje acompanhei o caso de uma paciente idosa (foto ilustrativa), vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O AVC ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido, podendo causar sequelas graves, como perda de movimentos, dificuldades na fala e comprometimento das funções vitais. No caso dela, a doença a levou a um estágio delicado, e agora estava em cuidados paliativos.

Os cuidados paliativos não buscam mais a cura, mas sim aliviar o sofrimento, oferecer conforto e dignidade ao paciente em seus últimos momentos. Como técnico de enfermagem, meu papel é garantir que ela não sinta dor, manter sua pele íntegra, auxiliar na higiene e, principalmente, proporcionar acolhimento tanto para ela quanto para seu filho, que a acompanha dia e noite.

Ele se desdobra entre carinho e cansaço, contando histórias, relembrando momentos felizes. “Ela sempre cuidou de mim. Agora é minha vez”, disse, enquanto ajeitava o cobertor dela com um olhar de quem não quer se despedir.

Estou começando a ver despedidas na minha profissão, mas sei, que cada uma me ensina algo novo sobre a vida. No hospital, lidamos com o começo e o fim da existência todos os dias. A morte pode parecer o fim, mas o amor que deixamos nos corações de quem fica continua vivo.

Antes de sair, disse ao filho: ela sente seu amor, e isso é o que realmente importa. Ele concordou, com os olhos cheios de lágrimas e um sorriso discreto.

A vida é breve, mas o cuidado e o amor são eternos. E, no fim, são essas marcas que realmente importam.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

.

Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre a Dor e o Amor

Hoje atendi uma paciente jovem e bem-humorada, mas que estava sofrendo com uma dor intensa causada por cálculos renais (foto ilustrativa). O cálculo renal, também conhecido como pedra nos rins, é uma formação sólida de cristais que pode obstruir as vias urinárias, causando dores severas, náuseas e até febre.

Para aliviar o sofrimento, a medicação intravenosa era essencial, mas aí surgiu um desafio: ela tinha pavor de receber medicação pelo acesso venoso.

“Você tem certeza que esse acesso não é um túnel sem fim?”, brincou, segurando o braço com receio.

Expliquei com calma o procedimento, garantindo que seria rápido e seguro. “Se eu sobreviver a isso, posso casar tranquila!”, disse rindo, tentando esconder o medo.

Entre uma piada e outra, fui realizando os cuidados necessários. Administrei o analgésico, monitorei os sinais vitais e orientei sobre a hidratação, essencial para ajudar a eliminação dos cálculos.

Mesmo com a dor, ela não perdia a alegria. “Se eu conseguir expelir essas pedras, posso pedir desconto no salão de festas?”, brincou novamente, fazendo até o noivo rir ao lado.

Ao final da assistência, já mais confortável e com menos dor, olhou para mim e perguntou: você acha que vou conseguir dançar no casamento? Respondi sem hesitar: com essa energia toda, acho que vai até abrir a pista!

Antes de sair, desejei a ela e ao noivo uma vida cheia de amor e parceria. Que vocês enfrentem juntos qualquer desafio, com o mesmo bom humor de hoje. Afinal, depois de vencer uma pedra nos rins, qualquer pedra no caminho será pequena.

Ela riu e, com brilho nos olhos, disse: isso aí! Agora é só esperar pelo “sim”!

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

.