Desde o estágio no Hospital São Peregrino, em Veranópolis, já acontecia: alguns pacientes insistiam em me chamar de doutor. Achei que isso ficaria no passado, mas no Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, onde trabalho há oito meses, a história só ganhou força.
Quase toda noite de plantão acontece a cena clássica: chego ao leito, me apresento com toda a calma — “Boa noite, eu sou o Marcelo, técnico de enfermagem”. O paciente, geralmente idoso, não se contém: “Mas doutor, o que será que eu tenho?” Eu explico que não sou médico, mas não adianta. Para não prolongar o mal-entendido, deixo rolar. No fim das contas, até ajuda: muitos idosos seguem melhor as orientações acreditando que vêm de um “doutor”. Faz parte do jogo e do cuidado.
A brincadeira foi além dos corredores. A turma da Van que transporta os funcionários já pegou gosto: “Só senta na frente quem é doutor”. Outra completa: “Claro, tem o Dr na frente do nome, ele é importante”. Risadas garantidas a cada viagem.
Essa semana mandei no grupo da Enfermagem que não viajaria de Van. Não deu outra: “Claro, o doutor não vai de Van, vai de Veloster”. Entrei na onda: respondi que tinha compromisso no Rio… e logo corrigi: no Rio das Antas! Gargalhada geral.
Entre pacientes e colegas, parece que não tem volta: virei o “Doutor Marcelo”. Uns dizem que é pela “pinta” de doutor, outros botam a culpa nos cabelos grisalhos. Eu levo na esportiva. Afinal, ser doutor sem CRM pode até ser uma piada, mas o que vale mesmo é o respeito e a confiança que cada plantão constrói.
Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem