Diário de um Técnico de Enfermagem: cuidando um “Guri de Uruguaiana”

Durante 15 dias, acompanhei um paciente de 59 anos nascido em Uruguaiana, na fronteira gaúcha, diagnosticado com pancreatite. A pancreatite é uma inflamação do pâncreas que pode ser aguda ou crônica, geralmente causada pelo consumo excessivo de álcool, cálculos biliares ou outras condições de saúde. Os sintomas incluem dores abdominais intensas, náuseas e febre, exigindo tratamento cuidadoso e monitoramento constante.

Nos primeiros dias de internação, vi no olhar dele a preocupação não apenas com a doença, mas também com a saudade de casa, pois mora há 10 anos em Bento Gonçalves. Conversávamos todas as noites sobre a vida na fronteira gaúcha, sobre o vento minuano que sopra forte, os desfiles tradicionalistas e o chimarrão compartilhado entre amigos. Falávamos da lida no campo, dos bailes, das cavalgadas e da hospitalidade do povo fronteiriço. Era nesses momentos que o peso da doença parecia amenizar um pouco.

À medida que os dias passavam e o tratamento fazia efeito, percebi sua inquietação em voltar para sua terra natal. Mas também sabia que o compromisso com a saúde deveria vir em primeiro lugar. No meu último plantão com ele, deixei um conselho claro: “Quando voltar para Uruguaiana, não deixe de seguir o tratamento até o fim. Te cuida, vivente, que ainda tens muitas estradas para cruzar.”

Ele sorriu e apertou minha mão, como quem aceita um desafio. E assim seguimos, cada um com sua missão, mas sempre com a certeza de que, na jornada da vida, o cuidado e a amizade são laços que nunca se desfazem.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Foto: Prefeitura de Uruguaiana/Divulgação

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Diário de um Técnico de Enfermagem – O churrasco dos guri

Intervalo no hospital é coisa sagrada, quando acontece, vira quase um evento. No refeitório, por cerca de trinta minutos, a equipe se reúne para jantar e colocar a conversa em dia.

O Técnico de Enfermagem Marcelo, lá de Lavras do Sul, sempre puxa o assunto do pampa gaúcho, com suas tradições e festas. Da Gestão de Fluxo, Marcos e Samantha, de São Francisco de Assis, juram que a melhor festa do Rio Grande do Sul acontece na Região Central do Estado. Já a enfermeira Jennifer, de São Borja, não perde a chance de enaltecer sua região.

Entre um prato de comida e outro, surgiu a ideia entre o Marcos e o Marcelo de fazer um churrasco e reunir a turma: “Bah, vamos fazer um churrasco dos guri! A gente só fala de tradição e carne boa, mas nunca assamos nada juntos!” Todos concordaram e até convidaram Michel, o paulista recém-chegado de Santos. Ele, acostumado a praia e pastel de feira, ficou animado com a ideia.

O problema? Já se passaram 50 dias e o tal churrasco nunca saiu do papel. Cada intervalo de jantar é a mesma coisa:

“Vamos marcar pro fim de semana!”
“É, mas esse sábado não dá, tem plantão…”
“E domingo?”
“Domingo eu descanso, tchê!”

E assim, o churrasco segue sendo um mito hospitalar.

Michel, que trabalha no turno inverso até brincou pelo Whatsapp: “Acho que vou voltar pra Santos antes de ver essa carne assando!”

Mas no fundo, todos sabem: mais importante que o churrasco é a amizade que nasceu entre as refeições e os plantões. Porque no hospital, a vida é corrida, mas um intervalo bem aproveitado vale mais do que um espeto de picanha… ou quase!

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem
Jornalista

Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre a Vida e o Amor

Hoje acompanhei o caso de uma paciente idosa (foto ilustrativa), vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O AVC ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do cérebro é interrompido, podendo causar sequelas graves, como perda de movimentos, dificuldades na fala e comprometimento das funções vitais. No caso dela, a doença a levou a um estágio delicado, e agora estava em cuidados paliativos.

Os cuidados paliativos não buscam mais a cura, mas sim aliviar o sofrimento, oferecer conforto e dignidade ao paciente em seus últimos momentos. Como técnico de enfermagem, meu papel é garantir que ela não sinta dor, manter sua pele íntegra, auxiliar na higiene e, principalmente, proporcionar acolhimento tanto para ela quanto para seu filho, que a acompanha dia e noite.

Ele se desdobra entre carinho e cansaço, contando histórias, relembrando momentos felizes. “Ela sempre cuidou de mim. Agora é minha vez”, disse, enquanto ajeitava o cobertor dela com um olhar de quem não quer se despedir.

Estou começando a ver despedidas na minha profissão, mas sei, que cada uma me ensina algo novo sobre a vida. No hospital, lidamos com o começo e o fim da existência todos os dias. A morte pode parecer o fim, mas o amor que deixamos nos corações de quem fica continua vivo.

Antes de sair, disse ao filho: ela sente seu amor, e isso é o que realmente importa. Ele concordou, com os olhos cheios de lágrimas e um sorriso discreto.

A vida é breve, mas o cuidado e o amor são eternos. E, no fim, são essas marcas que realmente importam.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre a Dor e o Amor

Hoje atendi uma paciente jovem e bem-humorada, mas que estava sofrendo com uma dor intensa causada por cálculos renais (foto ilustrativa). O cálculo renal, também conhecido como pedra nos rins, é uma formação sólida de cristais que pode obstruir as vias urinárias, causando dores severas, náuseas e até febre.

Para aliviar o sofrimento, a medicação intravenosa era essencial, mas aí surgiu um desafio: ela tinha pavor de receber medicação pelo acesso venoso.

“Você tem certeza que esse acesso não é um túnel sem fim?”, brincou, segurando o braço com receio.

Expliquei com calma o procedimento, garantindo que seria rápido e seguro. “Se eu sobreviver a isso, posso casar tranquila!”, disse rindo, tentando esconder o medo.

Entre uma piada e outra, fui realizando os cuidados necessários. Administrei o analgésico, monitorei os sinais vitais e orientei sobre a hidratação, essencial para ajudar a eliminação dos cálculos.

Mesmo com a dor, ela não perdia a alegria. “Se eu conseguir expelir essas pedras, posso pedir desconto no salão de festas?”, brincou novamente, fazendo até o noivo rir ao lado.

Ao final da assistência, já mais confortável e com menos dor, olhou para mim e perguntou: você acha que vou conseguir dançar no casamento? Respondi sem hesitar: com essa energia toda, acho que vai até abrir a pista!

Antes de sair, desejei a ela e ao noivo uma vida cheia de amor e parceria. Que vocês enfrentem juntos qualquer desafio, com o mesmo bom humor de hoje. Afinal, depois de vencer uma pedra nos rins, qualquer pedra no caminho será pequena.

Ela riu e, com brilho nos olhos, disse: isso aí! Agora é só esperar pelo “sim”!

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – O Jovem Guerreiro

Hoje foi um daqueles dias que nos marcam para sempre. Cuidei de um paciente especial, um jovem de 17 anos, diagnosticado com linfoma (foto ilustrativa). O linfoma é um tipo de câncer que afeta o sistema linfático, comprometendo a imunidade do organismo. Entre exames, quimioterapia e internações, ele e sua mãe enfrentam essa batalha com uma força admirável.

Como técnico de enfermagem, meu papel vai além dos cuidados clínicos, como administrar medicamentos, monitorar sinais vitais e auxiliar nos efeitos colaterais do tratamento. Sou também um suporte emocional, alguém que escuta, conforta e incentiva. Hoje, enquanto ajustava o acesso venoso para a medicação, percebi seu olhar cansado, mas ao mesmo tempo cheio de determinação.

“Tem dias que dói muito, mas eu não vou desistir”, ele me disse, segurando a mão da mãe. Ela sorriu, tentando disfarçar o cansaço, e respondeu: “Estamos juntos, filho, sempre.”

Essa troca me fez refletir sobre a resiliência desses pacientes e de suas famílias. O câncer ensina sobre o valor de cada dia, sobre a importância de pequenos gestos e palavras. Apesar das dificuldades, há sempre espaço para a esperança.

Ao final do plantão, antes de sair do quarto, olhei para ele e disse: “Você é um guerreiro, e guerreiros não lutam sozinhos. Estamos aqui com você.” Ele sorriu e respondeu: “Então, vamos vencer.”

E eu acredito nisso. A cada dia, a cada cuidado, plantamos a semente da recuperação e da esperança.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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