Diário de um Técnico de Enfermagem – Sentirei saudades da Dona Pitaia

Hoje não vou falar de doença. Vou falar de cura.

Neste último mês, como Técnico de Enfermagem, tive a honra de cuidar de uma senhora de 82 anos, que com o tempo a apelidei carinhosamente: Dona Pitaia.

Na primeira noite em que a atendi, tive que aplicar morfina — um analgésico forte, usado em casos de dor intensa, quando outros medicamentos não dão conta. Vi as lágrimas escorrendo dos olhos dela, e percebi que a dor ali era mais do que física. Diante do filho, ela chegou a dizer que não aguentaria que ia entregar os pontos.

Mas foi aí que entrou algo que não se compra em farmácia: o cuidado em equipe, o olhar humano. Disse a ela que eu estava ali pra ajudar, que não estava sozinha, que bastava chamar. E ela chamou — várias vezes — não só por ajuda, mas por companhia, por esperança.

A nossa equipe se uniu por ela. A enfermeira a chamava de “minha veinha” com um carinho que contagiava. Cada técnica que passava por aquele leito deixava um pedacinho de ânimo, um sorriso, um toque de humanidade.

E Dona Pitaia começou a reagir. Foi melhorando, recuperando forças. Um dia me disse: “Logo vou estar em casa com meus cachorros, graças a vocês”.

De lá em diante, era só alegria. A cada plantão, eu já sabia que ela ia perguntar da minha família e eu sempre respondia com um ditado campeiro, tipo “Mais faceira que lambari em sanga”.

Mas hoje à noite, ao iniciar o plantão, o leito estava vazio. Dona Pitaia teve alta. Foi embora, do jeitinho que sonhou: a tempo de passar a Páscoa com a família e os cachorros.

Fiquei ali parado, com o coração apertado e leve ao mesmo tempo. Porque esse é o poder do cuidado: ele não cura só com remédio, cura com presença, com escuta, com afeto.

E se alguém perguntar se vale a pena… eu respondo sem pensar duas vezes: Hoje Dona Pitaia está em casa, comendo a fruta que mais gosta. E eu sigo aqui, mais certo do que nunca, que cuidar é um ato de amor.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Foi assim, em uma dessas noites, que contraiu o HIV

Ser técnico de enfermagem vai muito além de medicação e procedimentos. Às vezes, é preciso oferecer algo mais: presença, escuta e humanidade.

Essa semana, conheci um paciente de 57 anos, diagnosticado com HIV. A AIDS, causada pelo vírus HIV, ainda carrega estigmas, mas os avanços no tratamento permitiram que muitas pessoas tenham qualidade de vida. O uso contínuo de antirretrovirais e o acompanhamento médico são essenciais. E nós, da enfermagem, temos papel fundamental nesse cuidado.

Durante o atendimento, percebi que ele estava tenso. Então, puxei assunto, de forma leve. Contei que sou de Lavras do Sul, lá do Pampa Gaúcho, quase na fronteira com o Uruguai. Falei que, há 20 anos, trabalhava com jornalismo e que só recentemente me formei como técnico de enfermagem. Ele abriu um sorriso.

Aos poucos, entre um cuidado e outro, ele compartilhou sua história. Foi representante comercial de uma grande marca de massas e biscoitos, viajou por todo o estado. Casado, com filhas, viveu intensamente — e, segundo ele mesmo, sem muitos limites. Foi assim, em uma dessas noites, que contraiu o HIV. Hoje, sozinho no hospital, ele ainda carrega leveza no olhar e sonha em morar na praia, levando uma vida tranquila.

Durante os atendimentos, sempre utilizo todos os EPIs: luvas, máscara, avental. Proteção para mim — e para ele, cuja imunidade está fragilizada. Expliquei isso com respeito, e ele compreendeu com gratidão.

Com o tempo, viramos amigos. Trocas sinceras, conselhos de vida, histórias de estrada e lições que não se aprendem em sala de aula. Porque, no fim, a técnica é essencial — mas é o afeto que transforma o cuidado em cura.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre Soro e Sorrisos: O Caminhar de Dona Tereza

Hoje, às três horas da madrugada, o plantão me presenteou com mais do que apenas rotinas e medicações. Trouxe aprendizado, sensibilidade e afeto — daqueles que só se vive na linha de frente.

Dona Tereza (fictício) tem 82 anos e está internada há 15 dias com um quadro de infecção urinária. Essa condição, comum em idosos, ocorre quando bactérias invadem o trato urinário, causando febre, ardência ao urinar, fraqueza e, muitas vezes, confusão mental. O tratamento inclui antibióticos, hidratação e, claro, muito cuidado.

Nos primeiros dias, ela era só sorrisos e conversas animadas, cheia de esperança com a melhora. Mas nos últimos tempos, a ansiedade começou a pesar. Ela dizia: “Não estou me sentindo bem.” Como Técnico de Enfermagem, além dos cuidados físicos, também preciso estar atento ao emocional. Sugeri uma caminhada leve pelo setor, e ela topou. Voltou ao leito dizendo: “Estou me sentindo melhor.”

Minutos depois, lá estava ela me chamando de novo: queria caminhar mais. Eu sorri, expliquei que precisava atender outros pacientes, mas prometi voltar — e cumpri. Mais uma volta pelo corredor, mais uma dose de leveza. Ao retornar, ela me pediu para deitar. “Agora sim, me sinto bem melhor”, disse com um sorriso sereno.

Mais tarde, ouvi quando disse à filha: “Sabe, filha… ele é lá da fronteira. Dizem que o pessoal de lá é bravo, mas ele é um anjo.”

Saí do quarto com o coração leve. Às vezes, o melhor remédio não está na farmácia — está na escuta, no cuidado, no simples gesto de caminhar ao lado de alguém.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem