Diário de um Técnico de Enfermagem – Ela está com dor… ou só quer atenção?

A assistência a pacientes crônicos exige mais do que técnica — exige sensibilidade. Recentemente, passei a cuidar de uma paciente de 59 anos, com histórico de múltiplas internações e várias enfermidades, entre elas a insuficiência renal, que a obriga a fazer hemodiálise — um procedimento que substitui a função dos rins, filtrando o sangue para remover toxinas e o excesso de líquidos.

Ao chegar ao leito, me apresentei, fiz os procedimentos de praxe e pedi que me chamasse se precisasse de algo. Não demorou e a campainha tocou. A paciente, com náuseas, queixava-se, mas logo queria ir ao banheiro. Era obesa, o que exigia mais tempo e esforço físico. Após 30 minutos sem que fizesse suas necessidades, voltamos ao leito. Em seguida, novas queixas: ânsia de vômito, dor no braço, incômodo geral.

Ali, percebi: não era só dor física. Era solidão disfarçada de sintomas.

Como a rotina pedia agilidade, precisei ser firme e dizer que iria atender outros pacientes, mas que voltaria. Ela me segurou pelo braço, com sua audição e visão prejudicadas, e disse: “Você promete que volta? Vai voltar, né?” Respondi que sim.

Voltei como prometido. Mediquei e, para desviar seu foco da dor, puxei conversa. Ela contou sua vida com detalhes, como quem não tinha mais com quem partilhar memórias. Na última visita da noite, ela me disse:
“Marcelo, você gosta do que faz, né?”
Respondi que sim. E ela completou:
“Eu sei. Você me escuta. Por isso sei que gosta.”

Às vezes, a maior dor do paciente não está no corpo — está na alma, pedindo alguém que simplesmente escute.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – O Reconhecimento do Filho

Na noite de ontem, uma dessas que parecem mais longas no plantão, fui surpreendido por um gesto simples, mas carregado de emoção. O filho do seu Aquiles, de 62 anos, paciente que enfrentava bravamente o tratamento contra a leucemia — uma doença que ataca as células sanguíneas e compromete a produção normal de glóbulos brancos — veio até o posto de enfermagem para informar que o pai havia acabado de falecer.

Chegou com passos firmes, mas olhos marejados, e perguntou à minha colega:
— Onde está o rapaz de Veranópolis?

Assim que ouvi, saí da outra sala e fui ao seu encontro. Ele olhou para mim e disse:
— Marcelo, o pai faleceu agora no posto 2B.

Estendi a mão para dar meus sentimentos e, antes que eu dissesse qualquer coisa, ele continuou:
— Vim aqui agradecer pelos seus cuidados com ele. Seu carinho, seu jeito alegre… o pai gostava de ser atendido por você. Sempre comentava. Você entrava no quarto brincando, falando de futebol…

Ele sorriu, entre o luto e a memória viva, e relembrou um momento que nem eu imaginava ter marcado tanto:
— Nunca vou esquecer aquele dia que você entrou no quarto dizendo: “Cheguei no Baile da Bergamota!” O pai riu tanto… e quando você falou “tá boa a música, aumenta o volume”, e começou a tocar aquela música gaúcha antiga… era a preferida dele. Aquilo ficou com a gente.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Apertei sua mão com firmeza e lhe disse o que o momento pedia:
— Obrigado por compartilhar isso. Ele também me marcou.

Naquele instante, compreendi — mais uma vez — que a técnica salva, mas é o afeto que cura por dentro. O cuidado vai além das medicações e protocolos. Às vezes, um sorriso, uma piada simples ou uma música querida se tornam bálsamos no fim da estrada.

Essa é a verdadeira essência da Enfermagem: ser ponte entre o sofrimento e o alívio, mesmo quando não há mais cura, mas ainda há muito o que cuidar.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Minha Primeira Despedida

Na quinta-feira, dia 08, perdi minha primeira paciente como Técnico de Enfermagem. Foi a primeira vez que o silêncio de um quarto me doeu. Conheci Dona Ana, 62 anos, logo que comecei no hospital, há três meses. Ela era acompanhada por outra colega, mas, sempre que precisava de algo e a campainha tocava, eu atendia: “meu filho, o soro acabou”, “estou com dor”. E assim nasceu um cuidado que foi além da escala.

Há cerca de 30 dias ela foi para o leito de isolamento. Tinha adquirido uma bactéria multirresistente do trato urinário — um tipo de infecção grave, que não responde aos antibióticos comuns. A partir daí, passamos a nos ver a cada dois dias. No início, ela ainda conversava, dava aquele sorriso fraco mas verdadeiro. Depois, com a piora do quadro, entramos com medidas hospitalares de conforto — ações que não curam, mas aliviam, como controlar a dor, hidratar os lábios, ajeitar o travesseiro, tocar a mão com respeito.

No dia da sua morte, cheguei para o plantão e perguntei à filha, que não saía de perto do quarto. A médica já havia dito que era questão de horas. Ela me olhou com olhos marejados: “o que a gente faz agora?” Respirei fundo e disse: “Do nosso lado, oferecemos conforto. Do seu, se tiver algo pra dizer, diga. A audição é um dos últimos sentidos a partir. E depois, faça uma oração.”

Ela me abraçou e prometeu que faria. Fui aplicar a medicação e deixei espaço para esse momento delas. Meia hora depois, a campainha tocou. Coração acelerou. Leito 211. Entrei no quarto. A filha disse: “acho que acabou tudo”. Sem pulso. Sem respiração. Fiz o protocolo. Chamei a enfermeira. Depois a médica.

Ao final, voltei ao quarto. A filha me abraçou e disse: “fiz o que você sugeriu. Pedi perdão, perdoei. E então ela partiu em paz. Você me ajudou a deixá-la ir.”

Naquele dia, aprendi que cuidar é também saber deixar partir.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: comemorar, mesmo no hospital

O plantão recém havia começado quando fui aferir os sinais vitais de um paciente já conhecido por muitos de nós. Um jovem guerreiro que enfrenta o Linfoma de Burkitt — um tipo raro e agressivo de câncer que atinge os linfócitos, células de defesa do organismo. Ele evolui rapidamente e exige tratamento intensivo, geralmente com quimioterapia. Nos últimos anos, boa parte da rotina dele — e da família — tem sido dentro do hospital.

Ao lado da cama, como sempre, estava sua mãe. Uma mulher forte, serena, presente. Companheira fiel em cada etapa do tratamento. Voltei ao quarto de isolamento (ambiente reservado para pacientes imunossuprimidos, onde o controle de infecções precisa ser rigoroso) por volta das 20h para administrar a medicação da noite. Abri a porta e me deparei com uma cena diferente: havia bolo, refrigerante e até um cachorro-quente. Sem entender, perguntei, surpreso: “Olha, é uma festa?”

Com um sorriso tranquilo, a mãe respondeu: “Hoje é meu aniversário”. Dei parabéns com o coração apertado e admirado. Ela completou: “Já que estamos no hospital, temos que comemorar. A Páscoa foi aqui. Meu aniversário, aqui. E o Dia das Mães, provavelmente também será aqui. Mas estamos ao lado do nosso filho, e isso é o mais importante.”

O paciente, que mais cedo mal aceitava a dieta oral, estava agora com um cachorro-quente nas mãos, sorrindo. A fome voltou na hora certa. O amor também alimenta.

Essa noite me ensinou que a vida pode florescer até nos corredores mais silenciosos. E que amor de mãe transforma qualquer quarto de hospital em lar.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: uma equipe, várias línguas

Há três meses, iniciei minha jornada no posto C3, na internação do SUS. Cheguei com o coração lavrense – vindo de Lavras do Sul, terra do ouro e da tradição gaúcha – e fui acolhido por uma equipe que, mais do que colegas, virou quase uma família. Uma enfermeira de São Borja, cidade histórica às margens do Rio Uruguai, terra dos presidentes e do famoso Museu Getúlio Vargas, lidera com firmeza e doçura.

Trabalho ao lado de técnicas vindas de todos os cantos: de Alecrim, no noroeste gaúcho, cidade pequena, mas cheia de beleza natural, como o Parque do Rio Lajeado; de Bento Gonçalves, com seus vinhedos encantadores, a rota dos vinhos e o famoso passeio de Maria Fumaça; de Macapá, capital que abraça o Rio Amazonas e guarda o espetacular Marco Zero do Equador; e do Pará, que nos traz o encanto do Ver-o-Peso, das ilhas de Belém e dos sabores únicos da culinária nortista.

Nosso plantão é um mosaico de sotaques – da serra, da fronteira, do pampa e da floresta. Às vezes, alguém arrisca imitar o jeito de falar do outro: é riso certo e uma forma carinhosa de aliviar a tensão dos longos plantões. Mas, mais do que sotaques, compartilhamos vivências. Entre um cuidado e outro, surgem conversas sobre as festas do Norte, os costumes do Sul, os cheiros das comidas típicas, os jeitos de ser de cada canto do Brasil.

E o mais bonito disso tudo é ver como a diversidade vira harmonia. Cada um com sua história, mas todos com o mesmo propósito: cuidar. Cuidar com respeito, com empatia e com alegria. Porque, no fim, somos uma só equipe – e, mesmo falando diferentes “línguas”, falamos a mesma quando o assunto é amor pelo que fazemos.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: Até Onde Vai a Coragem de uma Mãe?

Há cerca de 30 dias presto assistência à Ana, uma paciente de 42 anos, casada, mãe de dois filhos, que há três anos trava uma dura batalha contra o câncer de colo do útero — uma doença que afeta a parte inferior do útero e, em casos avançados, compromete profundamente a qualidade de vida. Recentemente, Ana passou a enfrentar também uma fístula vesicovaginal, uma comunicação anormal entre a bexiga e a vagina que causa incontinência urinária constante, exigindo cuidados delicados e, muitas vezes, internação em leito de isolamento de contato — um protocolo de segurança hospitalar que visa evitar a transmissão de infecções.

Nos primeiros dias, encontrei uma Ana abatida, silenciosa e com muita dor. Mas com o avanço do tratamento e a rotina dos cuidados, ela começou a conversar mais comigo, revelando, aos poucos, uma força surpreendente.

Numa dessas noites, ao chegar para o plantão, encontrei seu quarto cheio de vida: esposo e filhos a visitavam. O sorriso no rosto de Ana dizia tudo. Fiz os procedimentos de praxe, sinais estáveis, e segui minha rotina, prometendo voltar às 20h para a próxima medicação.

Quando retornei, puxei conversa sobre a família. Falou com ternura dos filhos — o mais novo, apaixonado por carros e motos, e o mais velho, cursando Administração. E então, me confidenciou, com os olhos marejados:

“Você e eu sabemos que meus dias estão contados. Mas se eu conseguir ir à formatura do meu filho, essa será a minha vitória.”

Ali, diante de mim, estava uma mulher pequena no corpo, mas gigante na esperança. E ao seu lado, sua irmã incansável, que há 30 dias não a deixa sozinha nem por um segundo.

Ana me ensinou que a coragem não está em vencer a guerra, mas em continuar lutando por pequenos grandes sonhos. E que, às vezes, só queremos tempo o bastante para um último abraço, uma última conquista. Que ela chegue até lá.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: uma lição de vida de uma paciente de 103 anos

Você acha que para trabalhar na enfermagem basta cuidar? Pois saiba: às vezes, também é preciso ser quase um poliglota! Nesta semana, durante meu plantão noturno, conheci uma paciente de 103 anos — uma verdadeira joia rara. Brasileira de nascimento, mas com raízes profundas na pequena Schiavon, no coração da Itália, ela trouxe para o hospital uma bagagem cultural impressionante.

Quando me apresentei como técnico de enfermagem, ela respondeu um educado “tá bene”. Mas bastou eu fazer as perguntas de rotina para perceber: ela não tinha entendido muita coisa! Foi a filha, fluente no dialeto italiano, quem traduziu nossa conversa. Mesmo com a barreira linguística, a conexão foi imediata.

Entre medicações e aferições de sinais, surgiram histórias encantadoras sobre sua juventude na colônia italiana próxima a Bento Gonçalves. Cada sorriso dela era um lembrete de que a vida é feita de coragem, fé e muito humor. Mesmo enfrentando osteoporose e outras comorbidades, ela jamais perdeu a alegria de viver. E olha que, aos 103 anos, era sua primeira hospitalização!

Um verdadeiro exemplo de que a saúde vai muito além do corpo — é também um reflexo da alma leve e do coração cheio de esperança. Ela me ensinou que, na enfermagem, entendemos mais do que palavras. Entendemos olhares, gestos e sentimentos. E que, para cuidar de alguém, às vezes basta ouvir com o coração.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Sentirei saudades da Dona Pitaia

Hoje não vou falar de doença. Vou falar de cura.

Neste último mês, como Técnico de Enfermagem, tive a honra de cuidar de uma senhora de 82 anos, que com o tempo a apelidei carinhosamente: Dona Pitaia.

Na primeira noite em que a atendi, tive que aplicar morfina — um analgésico forte, usado em casos de dor intensa, quando outros medicamentos não dão conta. Vi as lágrimas escorrendo dos olhos dela, e percebi que a dor ali era mais do que física. Diante do filho, ela chegou a dizer que não aguentaria que ia entregar os pontos.

Mas foi aí que entrou algo que não se compra em farmácia: o cuidado em equipe, o olhar humano. Disse a ela que eu estava ali pra ajudar, que não estava sozinha, que bastava chamar. E ela chamou — várias vezes — não só por ajuda, mas por companhia, por esperança.

A nossa equipe se uniu por ela. A enfermeira a chamava de “minha veinha” com um carinho que contagiava. Cada técnica que passava por aquele leito deixava um pedacinho de ânimo, um sorriso, um toque de humanidade.

E Dona Pitaia começou a reagir. Foi melhorando, recuperando forças. Um dia me disse: “Logo vou estar em casa com meus cachorros, graças a vocês”.

De lá em diante, era só alegria. A cada plantão, eu já sabia que ela ia perguntar da minha família e eu sempre respondia com um ditado campeiro, tipo “Mais faceira que lambari em sanga”.

Mas hoje à noite, ao iniciar o plantão, o leito estava vazio. Dona Pitaia teve alta. Foi embora, do jeitinho que sonhou: a tempo de passar a Páscoa com a família e os cachorros.

Fiquei ali parado, com o coração apertado e leve ao mesmo tempo. Porque esse é o poder do cuidado: ele não cura só com remédio, cura com presença, com escuta, com afeto.

E se alguém perguntar se vale a pena… eu respondo sem pensar duas vezes: Hoje Dona Pitaia está em casa, comendo a fruta que mais gosta. E eu sigo aqui, mais certo do que nunca, que cuidar é um ato de amor.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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