Recentemente, prestei assistência a uma paciente de 32 anos, natural de Curitiba (PR), que veio visitar os sogros em Bento Gonçalves (RS) e acabou sendo hospitalizada às pressas. O diagnóstico? Cálculos biliares. A solução? Uma colecistectomia, cirurgia para retirada da vesícula biliar — um pequeno órgão que armazena bile e pode causar dores intensas quando inflamado ou obstruído por pedras.
Logo no primeiro contato, percebi que ela era do tipo “paciente Google”. Curiosa, atenta e cheia de perguntas sobre as medicações. A experiência que tive durante o estágio técnico na AVAEC, de Veranópolis, me ajudou a identificar o perfil: alguém que busca na internet antes de confiar em quem está ao seu lado.
Após aferir seus sinais e separar a medicação (analgésicos, antibióticos, antieméticos…), voltei ao leito preparado para a sabatina. E ela não decepcionou: “Posso tomar os dois juntos?”, “Isso não dá problema?”, “Li que esse remédio pode dar reação.”
Com calma, expliquei: “Moça, fique tranquila. Esse hospital tem mais de 100 anos. Temos uma equipe excelente e não faremos nada que te prejudique. Queremos sua recuperação para que volte logo para Curitiba.” Ainda assim, sugeri chamar a enfermeira para esclarecer tudo.
A enfermeira foi, explicou. A paciente aceitou. Pensei: agora ela entendeu. Mas dias depois, em conversa com outro acompanhante do quarto, escuto:
“Ela esperava vocês saírem e ia direto no Google ver se era verdade.”
A desconfiança dela não era falta de respeito — era medo, era controle, era o impulso de quem quer entender o próprio corpo e participar do cuidado. E isso também faz parte da enfermagem: acolher, escutar, orientar… e repetir, se for preciso.
Entre a dúvida do paciente e a certeza do Google, cabe ao técnico de enfermagem ser ponte entre a ciência, a empatia e a confiança.
Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem
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