Diário de um Técnico de Enfermagem – Doutor sem CRM

Desde o estágio no Hospital São Peregrino, em Veranópolis, já acontecia: alguns pacientes insistiam em me chamar de doutor. Achei que isso ficaria no passado, mas no Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, onde trabalho há oito meses, a história só ganhou força.

Quase toda noite de plantão acontece a cena clássica: chego ao leito, me apresento com toda a calma — “Boa noite, eu sou o Marcelo, técnico de enfermagem”. O paciente, geralmente idoso, não se contém: “Mas doutor, o que será que eu tenho?” Eu explico que não sou médico, mas não adianta. Para não prolongar o mal-entendido, deixo rolar. No fim das contas, até ajuda: muitos idosos seguem melhor as orientações acreditando que vêm de um “doutor”. Faz parte do jogo e do cuidado.

A brincadeira foi além dos corredores. A turma da Van que transporta os funcionários já pegou gosto: “Só senta na frente quem é doutor”. Outra completa: “Claro, tem o Dr na frente do nome, ele é importante”. Risadas garantidas a cada viagem.

Essa semana mandei no grupo da Enfermagem que não viajaria de Van. Não deu outra: “Claro, o doutor não vai de Van, vai de Veloster”. Entrei na onda: respondi que tinha compromisso no Rio… e logo corrigi: no Rio das Antas! Gargalhada geral.

Entre pacientes e colegas, parece que não tem volta: virei o “Doutor Marcelo”. Uns dizem que é pela “pinta” de doutor, outros botam a culpa nos cabelos grisalhos. Eu levo na esportiva. Afinal, ser doutor sem CRM pode até ser uma piada, mas o que vale mesmo é o respeito e a confiança que cada plantão constrói.

Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem – A vesícula rebelde do Plantão

No plantão de dias atrás, acompanhei uma paciente de 48 anos, com um histórico cirúrgico extenso: abdominoplastia, mamoplastia, lipoaspiração e histerectomia. Além disso, já havia enfrentado um tromboembolismo pulmonar, o que tornava seu quadro ainda mais delicado. Ela me relatou, com expressão cansada:
— Essa dor não me larga há dias… parece que atravessa até as costas – disse.

Apesar do incômodo, encontrava-se estável, sem febre, caminhando pelo quarto e aceitando bem a alimentação. Os exames de imagem trouxeram a explicação: múltiplos microcálculos na vesícula e cálculos no colédoco — um caso de coledocolitíase obstrutiva. O plano médico foi mantê-la em observação, realizar exames laboratoriais de rotina e aguardar vaga para CPRE, procedimento endoscópico para retirada dos cálculos.

Na reunião com a enfermeira, reforçamos pontos críticos: destacar a alergia à metoclopramida no prontuário, monitorizar sinais vitais de forma rigorosa, estar atentos a icterícia, febre ou dor súbita mais intensa, além de manter jejum caso surgisse vaga para o procedimento. Foi solicitado também cuidado especial com analgesia e investigação da cefaleia que a paciente relatava.

No meu turno, aferi os sinais vitais — todos dentro da normalidade — e registrei cada dado. Aproveitei para orientar:
— Se notar dor diferente, febre ou se a pele começar a ficar amarelada, chame a equipe imediatamente.
Ela me olhou firme e respondeu:
— Pode deixar, sei que aqui estou em boas mãos.

Depois a equipe do laboratório realizou a coleta dos exames solicitados: função hepática, amilase/lipase, hemograma e coagulograma. Preparei analgesia conforme prescrição, garantindo conforto sem riscos. Também reforcei com meus colegas a contraindicação do uso de metoclopramida, ponto crucial para a segurança dela. Mantive vigilância próxima, avaliando dor, aceitação da dieta até o jejum e qualquer sinal de complicação.

Terminei o plantão com a sensação de missão cumprida. Em situações como essa, cada detalhe importa: um registro feito no tempo certo, uma orientação clara, um cuidado vigilante. Até que o procedimento definitivo seja realizado, é esse olhar atento que garante a segurança do paciente — e, no fim, faz toda a diferença.

Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

Diário de um Técnico de Enfermagem – Entre Cicatrizes e Coragem

Hoje cuidei de Dona Helena, 51 anos. Uma mulher de olhar firme, mas que carrega no corpo e na história as marcas de uma batalha intensa contra o câncer de ovário.

Ela está no pós-operatório de uma histerectomia total, resultado de um longo caminho que envolveu AITs prévios, diabetes tipo 2, hipertensão e uma vida marcada por cirurgias.

Quando entrei no quarto, encontrei-a consciente, orientada e comunicativa. Não relatava dores, apenas um cansaço silencioso que não precisava de palavras.

Os drenos laterais, a bolsa de colostomia e a sonda vesical falavam por si: o corpo ainda se recupera de uma guerra recente. A nutrição parenteral seguia constante, gotejando vida pelas vias de um cateter venoso central, instalado na jugular direita.

Enquanto eu aferia seus sinais vitais e trocava a roupa de cama, ela olhou para mim e disse:
— Sabe, Marcelo, quando me disseram que eu teria que passar por tudo isso, eu pensei que não aguentaria…

Eu parei o que fazia, olhei nos olhos dela e respondi:
— Mas você está aqui. E isso já mostra que é mais forte do que imaginava.

Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas carregado de gratidão.
— Força a gente descobre que tem quando não tem outra escolha, né?

Reflexão
Enquanto ajeitava as grades do leito, pensei sobre como a enfermagem vai além de técnicas e protocolos. É presença. É oferecer conforto onde a dor insiste. É ouvir mais do que falar. É estar ali, não apenas cuidando do corpo, mas ajudando o coração a acreditar que a vida continua — mesmo entre cicatrizes.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – “Era só um rádio… ou um pedido de socorro?”

Era uma noite fria de inverno, e o hospital já estava em silêncio. Mas em um dos leitos, um paciente se agitava, dizendo que iria fugir pela janela do segundo andar. Dizia que precisava ir embora, que não aguentava mais.

A equipe ficou em alerta. Trancamos a janela, chamamos a manutenção e reforçamos a segurança. Mas algo me dizia que, por trás daquela ameaça, havia um pedido de ajuda.

Fui até o quarto conversar. Era um homem com uma condição clínica delicada, mas o que mais pesava nele era invisível: era o abandono. Ex-etilista, em recuperação do alcoolismo, havia sido deixado para trás por familiares e amigos. Estava só.

Perguntei com calma:
— Amigo, por que essa agitação?
— Eu só queria conversar… ou ter um radinho. Já estou há dias aqui, sozinho, e o silêncio me faz pensar besteira.

Voltei ao posto, peguei meu celular e retornei:
— Que rádio você quer ouvir?
Ele, confuso, perguntou se eu estava brincando.
— Não. Vou deixar aqui na mesa, carregando, e você escolhe a estação que quiser. Só quero que se acalme.

Ele escolheu uma rádio sertaneja. Ficou ali, quieto, ouvindo, como se cada canção dissesse que ele ainda era humano, ainda merecia ser escutado.

À meia-noite, pedi o celular de volta para o intervalo, prometendo que depois devolveria.
Mas quando voltei, ele dormia. Um sono calmo, sereno — o primeiro em dias.

Mais do que medicamentos, aquele homem precisava de presença. De alguém que visse além do prontuário. De alguém que entendesse que um rádio podia ser mais poderoso que um sedativo.

Acredito que nem toda dor é física. Às vezes, o que acalma a alma é ser ouvido, mesmo sem dizer uma palavra. E, no fim das contas, talvez o maior cuidado que podemos oferecer seja simplesmente estar ali.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Uma quase namorada de 89 anos

Cheguei para mais um plantão noturno na unidade de internação do SUS, naquele ritmo de quem já conhece bem a rotina: colocar os EPIs, separar materiais, checar os dados dos paciente e iniciar a primeira rodada de sinais vitais. Seis pacientes sob meus cuidados naquela noite, e como de costume, comecei pelo quarto 4 — um leito coletivo feminino, onde ficam pacientes em tratamento ou recuperação cirúrgica.

No leito 4A encontrei dona Maria, uma senhora de 89 anos, cabelos brancos e sorriso fácil, acompanhada da filha. Assim que entrei, ela soltou um “boa noite, doutor!” com aquela simpatia que aquece o coração. Sorri e me apresentei: “Dona Maria, apesar dos cabelos grisalhos, ainda não sou doutor, viu? Sou o Marcelo, técnico de enfermagem, e vou cuidar da senhora essa noite.” Ela riu e respondeu: “Ah tá, que bom então!”

Enquanto aferia seus sinais — todos estáveis — ela puxou assunto, quis saber onde eu morava, fazia perguntas com aquele jeitinho curioso de quem gosta de conversar. Então, entre uma medição e outra, brinquei: “Já vou avisando, dona Maria: sou casado e não vou cair na sua conversa, viu?” Ela ficou sem entender por um segundo, e eu expliquei: “É que a última paciente nesse leito, uma senhora de 103 anos, me pediu em namoro! Demorei pra convencer ela de que não dava…”

Dona Maria e a filha caíram na risada. “Pode ficar tranquilo, meu filho. Não estou procurando namorado… por enquanto!”, disse ela, devolvendo a piada com elegância.

Dois dias depois, voltei ao plantão. Fui até o leito 4A e, ao cumprimentá-las, a filha anunciou com bom humor: “Ô Marcelo, tua namorada vai te deixar, estamos indo embora agora.” Entrei na brincadeira: “É sempre assim… prometem mundos e fundos e depois abandonam a gente!”

Nos despedimos com carinho. Dona Maria, com os olhos marejados de gratidão, disse: “Obrigada pelo atendimento, me senti bem melhor com nossas piadas.” E completou: “Quando passar por Faria Lemos, convida tua esposa pra tomar um café conosco. Vai ser um prazer receber vocês.” Agradeci e prometi: “Deixa o verão chegar, dona Maria. Um dia apareço por lá.”

Histórias como essa são lembretes silenciosos de que, muitas vezes, o que mais cura é o afeto. Não importa se temos medicamentos ou equipamentos de última geração — um olhar humano, uma piada despretensiosa ou um gesto gentil podem ser o verdadeiro remédio. Entre curativos e risadas, nasce algo maior: uma amizade que, mesmo breve, deixa marcas que o tempo não apaga. Porque cuidar é, antes de tudo, criar vínculos.

Por Marcelo Marques

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Posso confiar em você… ou o Google sabe mais?

Recentemente, prestei assistência a uma paciente de 32 anos, natural de Curitiba (PR), que veio visitar os sogros em Bento Gonçalves (RS) e acabou sendo hospitalizada às pressas. O diagnóstico? Cálculos biliares. A solução? Uma colecistectomia, cirurgia para retirada da vesícula biliar — um pequeno órgão que armazena bile e pode causar dores intensas quando inflamado ou obstruído por pedras.

Logo no primeiro contato, percebi que ela era do tipo “paciente Google”. Curiosa, atenta e cheia de perguntas sobre as medicações. A experiência que tive durante o estágio técnico na AVAEC, de Veranópolis, me ajudou a identificar o perfil: alguém que busca na internet antes de confiar em quem está ao seu lado.

Após aferir seus sinais e separar a medicação (analgésicos, antibióticos, antieméticos…), voltei ao leito preparado para a sabatina. E ela não decepcionou: “Posso tomar os dois juntos?”, “Isso não dá problema?”, “Li que esse remédio pode dar reação.”

Com calma, expliquei: “Moça, fique tranquila. Esse hospital tem mais de 100 anos. Temos uma equipe excelente e não faremos nada que te prejudique. Queremos sua recuperação para que volte logo para Curitiba.” Ainda assim, sugeri chamar a enfermeira para esclarecer tudo.

A enfermeira foi, explicou. A paciente aceitou. Pensei: agora ela entendeu. Mas dias depois, em conversa com outro acompanhante do quarto, escuto:

“Ela esperava vocês saírem e ia direto no Google ver se era verdade.”

A desconfiança dela não era falta de respeito — era medo, era controle, era o impulso de quem quer entender o próprio corpo e participar do cuidado. E isso também faz parte da enfermagem: acolher, escutar, orientar… e repetir, se for preciso.

Entre a dúvida do paciente e a certeza do Google, cabe ao técnico de enfermagem ser ponte entre a ciência, a empatia e a confiança.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – O Reconhecimento do Filho

Na noite de ontem, uma dessas que parecem mais longas no plantão, fui surpreendido por um gesto simples, mas carregado de emoção. O filho do seu Aquiles, de 62 anos, paciente que enfrentava bravamente o tratamento contra a leucemia — uma doença que ataca as células sanguíneas e compromete a produção normal de glóbulos brancos — veio até o posto de enfermagem para informar que o pai havia acabado de falecer.

Chegou com passos firmes, mas olhos marejados, e perguntou à minha colega:
— Onde está o rapaz de Veranópolis?

Assim que ouvi, saí da outra sala e fui ao seu encontro. Ele olhou para mim e disse:
— Marcelo, o pai faleceu agora no posto 2B.

Estendi a mão para dar meus sentimentos e, antes que eu dissesse qualquer coisa, ele continuou:
— Vim aqui agradecer pelos seus cuidados com ele. Seu carinho, seu jeito alegre… o pai gostava de ser atendido por você. Sempre comentava. Você entrava no quarto brincando, falando de futebol…

Ele sorriu, entre o luto e a memória viva, e relembrou um momento que nem eu imaginava ter marcado tanto:
— Nunca vou esquecer aquele dia que você entrou no quarto dizendo: “Cheguei no Baile da Bergamota!” O pai riu tanto… e quando você falou “tá boa a música, aumenta o volume”, e começou a tocar aquela música gaúcha antiga… era a preferida dele. Aquilo ficou com a gente.

Fiquei em silêncio por alguns segundos. Apertei sua mão com firmeza e lhe disse o que o momento pedia:
— Obrigado por compartilhar isso. Ele também me marcou.

Naquele instante, compreendi — mais uma vez — que a técnica salva, mas é o afeto que cura por dentro. O cuidado vai além das medicações e protocolos. Às vezes, um sorriso, uma piada simples ou uma música querida se tornam bálsamos no fim da estrada.

Essa é a verdadeira essência da Enfermagem: ser ponte entre o sofrimento e o alívio, mesmo quando não há mais cura, mas ainda há muito o que cuidar.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Contrato por prazo indeterminado

No dia 10 de maio completei três meses de trabalho no Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, e com alegria compartilho que fui efetivado! Este é o meu primeiro contrato como Técnico de Enfermagem e marca uma nova fase após minha formatura, em 7 de dezembro de 2024.

O Hospital Tacchini é uma instituição referência na Serra Gaúcha, com uma trajetória sólida e compromisso com a excelência no atendimento. Atuo na unidade de internação SUS, no Posto 2C, onde fui acolhido pelas colegas com respeito, paciência e muito profissionalismo. Desde o primeiro dia, percebi que aqui não se trata apenas de executar tarefas, mas de fazer parte de um time que realmente se importa com o cuidado ao próximo.

Nestes 90 dias de contrato de experiência, tive a sorte de contar com uma enfermeira que faz toda a diferença na minha rotina. Ela oferece feedbacks construtivos, promove um ambiente de diálogo justo e mantém a equipe alinhada com equilíbrio. Além disso, é firme ao defender nossa equipe, o que transmite segurança e valorização. Saber que posso contar com essa liderança me dá ainda mais motivação para seguir evoluindo.

Trabalhar no Hospital Tacchini tem sido uma experiência extremamente positiva. A organização dos processos, a comunicação clara e o apoio da equipe me permitem exercer minha função com confiança e qualidade. Me sinto respeitado, incluído e parte de algo maior.

Essa conquista me ensina que o começo pode ser desafiador, mas quando encontramos um ambiente que nos apoia e pessoas dispostas a caminhar ao nosso lado, tudo se torna possível. Que venham os próximos capítulos — sigo com o compromisso de aprender, crescer e cuidar com dedicação.

Essa experiência reafirma meu propósito: ser técnico de enfermagem não é só uma profissão, é uma escolha diária de fazer a diferença na vida de alguém.

PS: Na foto faltam as colegas Fran (Amapá) e Kátia (Maranhão)

Por Marcelo Marques

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