Diário de um Técnico de Enfermagem: comemorar, mesmo no hospital

O plantão recém havia começado quando fui aferir os sinais vitais de um paciente já conhecido por muitos de nós. Um jovem guerreiro que enfrenta o Linfoma de Burkitt — um tipo raro e agressivo de câncer que atinge os linfócitos, células de defesa do organismo. Ele evolui rapidamente e exige tratamento intensivo, geralmente com quimioterapia. Nos últimos anos, boa parte da rotina dele — e da família — tem sido dentro do hospital.

Ao lado da cama, como sempre, estava sua mãe. Uma mulher forte, serena, presente. Companheira fiel em cada etapa do tratamento. Voltei ao quarto de isolamento (ambiente reservado para pacientes imunossuprimidos, onde o controle de infecções precisa ser rigoroso) por volta das 20h para administrar a medicação da noite. Abri a porta e me deparei com uma cena diferente: havia bolo, refrigerante e até um cachorro-quente. Sem entender, perguntei, surpreso: “Olha, é uma festa?”

Com um sorriso tranquilo, a mãe respondeu: “Hoje é meu aniversário”. Dei parabéns com o coração apertado e admirado. Ela completou: “Já que estamos no hospital, temos que comemorar. A Páscoa foi aqui. Meu aniversário, aqui. E o Dia das Mães, provavelmente também será aqui. Mas estamos ao lado do nosso filho, e isso é o mais importante.”

O paciente, que mais cedo mal aceitava a dieta oral, estava agora com um cachorro-quente nas mãos, sorrindo. A fome voltou na hora certa. O amor também alimenta.

Essa noite me ensinou que a vida pode florescer até nos corredores mais silenciosos. E que amor de mãe transforma qualquer quarto de hospital em lar.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: uma equipe, várias línguas

Há três meses, iniciei minha jornada no posto C3, na internação do SUS. Cheguei com o coração lavrense – vindo de Lavras do Sul, terra do ouro e da tradição gaúcha – e fui acolhido por uma equipe que, mais do que colegas, virou quase uma família. Uma enfermeira de São Borja, cidade histórica às margens do Rio Uruguai, terra dos presidentes e do famoso Museu Getúlio Vargas, lidera com firmeza e doçura.

Trabalho ao lado de técnicas vindas de todos os cantos: de Alecrim, no noroeste gaúcho, cidade pequena, mas cheia de beleza natural, como o Parque do Rio Lajeado; de Bento Gonçalves, com seus vinhedos encantadores, a rota dos vinhos e o famoso passeio de Maria Fumaça; de Macapá, capital que abraça o Rio Amazonas e guarda o espetacular Marco Zero do Equador; e do Pará, que nos traz o encanto do Ver-o-Peso, das ilhas de Belém e dos sabores únicos da culinária nortista.

Nosso plantão é um mosaico de sotaques – da serra, da fronteira, do pampa e da floresta. Às vezes, alguém arrisca imitar o jeito de falar do outro: é riso certo e uma forma carinhosa de aliviar a tensão dos longos plantões. Mas, mais do que sotaques, compartilhamos vivências. Entre um cuidado e outro, surgem conversas sobre as festas do Norte, os costumes do Sul, os cheiros das comidas típicas, os jeitos de ser de cada canto do Brasil.

E o mais bonito disso tudo é ver como a diversidade vira harmonia. Cada um com sua história, mas todos com o mesmo propósito: cuidar. Cuidar com respeito, com empatia e com alegria. Porque, no fim, somos uma só equipe – e, mesmo falando diferentes “línguas”, falamos a mesma quando o assunto é amor pelo que fazemos.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: Até Onde Vai a Coragem de uma Mãe?

Há cerca de 30 dias presto assistência à Ana, uma paciente de 42 anos, casada, mãe de dois filhos, que há três anos trava uma dura batalha contra o câncer de colo do útero — uma doença que afeta a parte inferior do útero e, em casos avançados, compromete profundamente a qualidade de vida. Recentemente, Ana passou a enfrentar também uma fístula vesicovaginal, uma comunicação anormal entre a bexiga e a vagina que causa incontinência urinária constante, exigindo cuidados delicados e, muitas vezes, internação em leito de isolamento de contato — um protocolo de segurança hospitalar que visa evitar a transmissão de infecções.

Nos primeiros dias, encontrei uma Ana abatida, silenciosa e com muita dor. Mas com o avanço do tratamento e a rotina dos cuidados, ela começou a conversar mais comigo, revelando, aos poucos, uma força surpreendente.

Numa dessas noites, ao chegar para o plantão, encontrei seu quarto cheio de vida: esposo e filhos a visitavam. O sorriso no rosto de Ana dizia tudo. Fiz os procedimentos de praxe, sinais estáveis, e segui minha rotina, prometendo voltar às 20h para a próxima medicação.

Quando retornei, puxei conversa sobre a família. Falou com ternura dos filhos — o mais novo, apaixonado por carros e motos, e o mais velho, cursando Administração. E então, me confidenciou, com os olhos marejados:

“Você e eu sabemos que meus dias estão contados. Mas se eu conseguir ir à formatura do meu filho, essa será a minha vitória.”

Ali, diante de mim, estava uma mulher pequena no corpo, mas gigante na esperança. E ao seu lado, sua irmã incansável, que há 30 dias não a deixa sozinha nem por um segundo.

Ana me ensinou que a coragem não está em vencer a guerra, mas em continuar lutando por pequenos grandes sonhos. E que, às vezes, só queremos tempo o bastante para um último abraço, uma última conquista. Que ela chegue até lá.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem: uma lição de vida de uma paciente de 103 anos

Você acha que para trabalhar na enfermagem basta cuidar? Pois saiba: às vezes, também é preciso ser quase um poliglota! Nesta semana, durante meu plantão noturno, conheci uma paciente de 103 anos — uma verdadeira joia rara. Brasileira de nascimento, mas com raízes profundas na pequena Schiavon, no coração da Itália, ela trouxe para o hospital uma bagagem cultural impressionante.

Quando me apresentei como técnico de enfermagem, ela respondeu um educado “tá bene”. Mas bastou eu fazer as perguntas de rotina para perceber: ela não tinha entendido muita coisa! Foi a filha, fluente no dialeto italiano, quem traduziu nossa conversa. Mesmo com a barreira linguística, a conexão foi imediata.

Entre medicações e aferições de sinais, surgiram histórias encantadoras sobre sua juventude na colônia italiana próxima a Bento Gonçalves. Cada sorriso dela era um lembrete de que a vida é feita de coragem, fé e muito humor. Mesmo enfrentando osteoporose e outras comorbidades, ela jamais perdeu a alegria de viver. E olha que, aos 103 anos, era sua primeira hospitalização!

Um verdadeiro exemplo de que a saúde vai muito além do corpo — é também um reflexo da alma leve e do coração cheio de esperança. Ela me ensinou que, na enfermagem, entendemos mais do que palavras. Entendemos olhares, gestos e sentimentos. E que, para cuidar de alguém, às vezes basta ouvir com o coração.

Por Marcelo Marques

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Marcelo Marques da Silveira
Técnico de Enfermagem
Coren/RS 002271132

Jornalista
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Diário de um Técnico de Enfermagem – uma amizade entre sinais vitais e recomeços

Há mais de 30 dias venho acompanhando um paciente de 48 anos, que chegou ao hospital agitado, em abstinência alcoólica. Ex-etilista — como chamamos quem teve histórico de consumo excessivo de álcool —, ele precisou de medicações para acalmar o corpo e a mente. A abstinência, que pode causar tremores, alucinações, agitação e até convulsões, é só uma das muitas faces do alcoolismo. Com o tempo, surgem também outras doenças: cirrose hepática, pancreatite, problemas cardíacos e até neurológicos.

Quando a tempestade passou, surgiu o homem por trás da dor. Lúcido, me chamou de “Gaudério”, por eu ser de Lavras do Sul, no coração do pampa gaúcho. Ele, um pedreiro, natural de Santo Ângelo, começou a compartilhar sua história. Falou do arrependimento pelas atitudes sob efeito da bebida, da separação, da distância das filhas. Disse que a solidão do leito era um castigo.

Mas Deus sempre coloca alguém na travessia. Um pastor o visita toda semana, levando frutas e palavras de fé. E eu, no meu jaleco, fui ouvindo, acolhendo, sem julgamentos. A cada plantão, a mesma saudação entre amigos:
— Como tá hoje, gaúderio?
— Tudo bueno, gaudério. Tô aqui lendo a Bíblia.

A alta se aproxima. Ele diz que está ansioso, que quer recomeçar. E eu disse o que o coração sentiu:
— Isso mesmo, gaudério. Foco na nova vida. Que as nossas conversas e a Palavra de Deus iluminem teu caminho.

No fim das contas, não é só a medicação que cura. Às vezes, um pouco de escuta, um apelido carinhoso e a fé no recomeço também fazem parte da receita.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Sentirei saudades da Dona Pitaia

Hoje não vou falar de doença. Vou falar de cura.

Neste último mês, como Técnico de Enfermagem, tive a honra de cuidar de uma senhora de 82 anos, que com o tempo a apelidei carinhosamente: Dona Pitaia.

Na primeira noite em que a atendi, tive que aplicar morfina — um analgésico forte, usado em casos de dor intensa, quando outros medicamentos não dão conta. Vi as lágrimas escorrendo dos olhos dela, e percebi que a dor ali era mais do que física. Diante do filho, ela chegou a dizer que não aguentaria que ia entregar os pontos.

Mas foi aí que entrou algo que não se compra em farmácia: o cuidado em equipe, o olhar humano. Disse a ela que eu estava ali pra ajudar, que não estava sozinha, que bastava chamar. E ela chamou — várias vezes — não só por ajuda, mas por companhia, por esperança.

A nossa equipe se uniu por ela. A enfermeira a chamava de “minha veinha” com um carinho que contagiava. Cada técnica que passava por aquele leito deixava um pedacinho de ânimo, um sorriso, um toque de humanidade.

E Dona Pitaia começou a reagir. Foi melhorando, recuperando forças. Um dia me disse: “Logo vou estar em casa com meus cachorros, graças a vocês”.

De lá em diante, era só alegria. A cada plantão, eu já sabia que ela ia perguntar da minha família e eu sempre respondia com um ditado campeiro, tipo “Mais faceira que lambari em sanga”.

Mas hoje à noite, ao iniciar o plantão, o leito estava vazio. Dona Pitaia teve alta. Foi embora, do jeitinho que sonhou: a tempo de passar a Páscoa com a família e os cachorros.

Fiquei ali parado, com o coração apertado e leve ao mesmo tempo. Porque esse é o poder do cuidado: ele não cura só com remédio, cura com presença, com escuta, com afeto.

E se alguém perguntar se vale a pena… eu respondo sem pensar duas vezes: Hoje Dona Pitaia está em casa, comendo a fruta que mais gosta. E eu sigo aqui, mais certo do que nunca, que cuidar é um ato de amor.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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Diário de um Técnico de Enfermagem – Foi assim, em uma dessas noites, que contraiu o HIV

Ser técnico de enfermagem vai muito além de medicação e procedimentos. Às vezes, é preciso oferecer algo mais: presença, escuta e humanidade.

Essa semana, conheci um paciente de 57 anos, diagnosticado com HIV. A AIDS, causada pelo vírus HIV, ainda carrega estigmas, mas os avanços no tratamento permitiram que muitas pessoas tenham qualidade de vida. O uso contínuo de antirretrovirais e o acompanhamento médico são essenciais. E nós, da enfermagem, temos papel fundamental nesse cuidado.

Durante o atendimento, percebi que ele estava tenso. Então, puxei assunto, de forma leve. Contei que sou de Lavras do Sul, lá do Pampa Gaúcho, quase na fronteira com o Uruguai. Falei que, há 20 anos, trabalhava com jornalismo e que só recentemente me formei como técnico de enfermagem. Ele abriu um sorriso.

Aos poucos, entre um cuidado e outro, ele compartilhou sua história. Foi representante comercial de uma grande marca de massas e biscoitos, viajou por todo o estado. Casado, com filhas, viveu intensamente — e, segundo ele mesmo, sem muitos limites. Foi assim, em uma dessas noites, que contraiu o HIV. Hoje, sozinho no hospital, ele ainda carrega leveza no olhar e sonha em morar na praia, levando uma vida tranquila.

Durante os atendimentos, sempre utilizo todos os EPIs: luvas, máscara, avental. Proteção para mim — e para ele, cuja imunidade está fragilizada. Expliquei isso com respeito, e ele compreendeu com gratidão.

Com o tempo, viramos amigos. Trocas sinceras, conselhos de vida, histórias de estrada e lições que não se aprendem em sala de aula. Porque, no fim, a técnica é essencial — mas é o afeto que transforma o cuidado em cura.

Por Marcelo Marques
Técnico de Enfermagem

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